Tudo começou com um desaparecimento que, em poucas horas, se transformaria em uma sequência de descobertas tão brutais que o caso entraria para a história como a maior chacina do Distrito Federal.
Mas quem desapareceu primeiro?
A princípio, o que veio à tona foi o sumiço da cabeleireira Elizamar Silva e de seus três filhos, em 12 de janeiro de 2023. Eles desapareceram depois que ela saiu do salão onde trabalhava, na Asa Norte, e foi buscar as crianças na chácara do sogro, no Itapoã.
Depois disso, ninguém mais teve notícia deles.
E é justamente aí que surge a pergunta que mudou tudo: para onde eles foram?
A resposta apareceu rápido, mas da pior forma possível.
No dia seguinte ao desaparecimento, os corpos de Elizamar e dos três filhos foram encontrados dentro de um carro queimado em Cristalina (GO).
Os cadáveres estavam carbonizados, a mais de 130 quilômetros do local de onde haviam saído.
Só que esse achado, em vez de encerrar o caso, abriu uma dúvida ainda mais perturbadora: como quatro pessoas desapareceram no DF e foram encontradas mortas em outro estado em menos de um dia?
E o que parecia já ser devastador ficou ainda maior.
Em 14 de janeiro, mais dois corpos foram localizados, também carbonizados, dentro do carro de Marcos Antônio, em Unaí (MG).
As vítimas eram Renata Belchior e Gabriela Belchior.
Segundo a investigação, elas foram atraídas para o cativeiro onde Marcos Antônio estava.
Mas há um ponto que quase ninguém percebe de imediato: se havia um cativeiro, quantas pessoas ainda estavam desaparecidas?
Foi essa pergunta que levou a polícia a uma nova descoberta.
Em 18 de janeiro, Marcos Antônio Oliveira, sogro de Elizamar, foi encontrado morto em Planaltina (DF).
Ele havia sido esquartejado e enterrado justamente no local usado como cativeiro pelos criminosos.
Nesse momento, o caso já não era apenas uma sequência de homicídios.
Ele revelava uma engrenagem de violência espalhada por diferentes cidades e estados.
Só que ainda faltavam vítimas.
E o que aconteceu depois mudou completamente a dimensão da chacina.
No dia 24 de janeiro, a polícia encontrou o corpo de Thiago Belchior, marido de Elizamar, dentro de uma cisterna em Planaltina.
No mesmo local estavam também os corpos de Cláudia Regina Marques de Oliveira e Ana Beatriz Marques de Oliveira, ex-mulher e filha de Marcos Antônio.
A essa altura, o número de mortos chegava a 10 pessoas da mesma família.
E é aqui que muita gente se surpreende: os corpos estavam espalhados entre DF, Goiás e Minas Gerais, o que deu ao caso uma dimensão ainda mais chocante.
Mas o que teria motivado uma chacina com esse nível de crueldade?
A investigação da Polícia Civil apontou que os crimes foram motivados por uma disputa de terras em Itapoã (DF).
O imóvel em questão foi avaliado em cerca de R$ 2 milhões.
A área tinha cachoeira privativa, ampla extensão e cerca de 5 hectares, o equivalente a 50 mil metros quadrados.
E quando esse detalhe aparece, tudo ganha outro peso: não se tratava de um crime aleatório, mas de uma trama ligada a patrimônio, poder e interesse direto sobre a propriedade.
Quem foi preso por esse caso?
O primeiro detido foi Gideon Batista, em 17 de janeiro.
No mesmo dia, também foram presos Horácio Carlos e Fabrício Silva.
Gideon trabalhava com Marcos Antônio e foi encontrado com as mãos queimadas.
Horácio confessou o crime e afirmou que os assassinatos haviam sido encomendados por Thiago Belchior e Marcos Antônio — dois nomes que, depois, a própria investigação confirmou estarem entre as vítimas da chacina.
Fabrício, segundo a apuração, era responsável por manter parte das vítimas em cativeiro.
Mais tarde, Carlomam se entregou.
E quem responde hoje por essa sequência de crimes?
Fabrício Silva Canhedo, Carlomam dos Santos Nogueira, Carlos Henrique Alves da Silva, Horácio Carlos Ferreira Barbosa e Gideon Batista de Menezes vão ao Tribunal do Júri no Fórum de Planaltina.
Eles são apontados como os cinco réus da maior chacina da história do DF.
Se condenados, podem pegar mais de 70 anos de prisão cada, com penas somadas que podem chegar a 358 anos.
Eles responderão por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.
Mas, mesmo com a lista de acusações e com a dimensão já conhecida do caso, uma sensação permanece: a de que cada nova descoberta revelou não apenas mortes, mas camadas de uma disputa familiar que terminou de forma devastadora — e cujo impacto ainda não se encerrou.