O encontro aconteceu antes da hora decisiva e longe dos holofotes.
Na última semana, o advogado-geral da União, Jorge Messias, se reuniu em Brasília com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, às vésperas da sabatina que pode abrir seu caminho ao Supremo Tribunal Federal.
A conversa ocorreu antes da sessão marcada para esta quarta-feira, 29 de abril, e recolocou no centro do debate uma pergunta inevitável: por que uma reunião desse peso aconteceu de forma reservada justamente no momento mais sensível da indicação?
A resposta está no tamanho do que está em jogo.
Messias foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a vaga de Luís Roberto Barroso no STF.
A indicação foi feita em novembro, mas só foi oficializada em março deste ano, por meio de mensagem enviada ao Senado.
Desde então, o processo entrou na fase em que articulação política e rito institucional passam a caminhar lado a lado.
O encontro entre Messias e Alcolumbre já vinha sendo especulado desde o ano passado.
Agora, segundo informação revelada pela colunista Mônica Bérgamo, da Folha de S.
Paulo, e confirmada pelo Metrópoles, a reunião de fato ocorreu “às escondidas”.
E o tema tratado foi justamente a sabatina do indicado ao Supremo.
Isso muda algo no processo?
Formalmente, não.
Messias ainda precisa cumprir todas as etapas previstas.
Primeiro, passar pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Ali, depende da aprovação da maioria simples dos senadores presentes.
Depois, se avançar, terá de enfrentar o plenário da Casa, onde precisa conquistar ao menos 41 votos entre os 81 senadores.
Mas, politicamente, o encontro expõe um ponto que chama atenção.
Se a sabatina é um instrumento de avaliação pública, por que a conversa prévia sobre esse mesmo processo ocorreu de maneira reservada?
A questão não altera o rito, mas reforça a percepção de que, nos bastidores de Brasília, a disputa por uma cadeira no STF passa muito antes pela costura política do que pela exposição pública de argumentos.
E Messias não está parado nessa corrida.
Segundo apuração do Metrópoles, ele já peregrinou entre os 81 senadores em busca de apoio e teria ao menos 47 votos garantidos.
O número, se confirmado na prática, colocaria sua indicação em posição confortável para a etapa final no plenário.
Então a aprovação já está assegurada?
Em política, voto contado antes da sessão nunca é sinônimo de resultado fechado.
Mesmo assim, o cenário descrito por interlocutores do AGU é mais favorável do que no fim do ano passado.
Naquele momento, Alcolumbre chegou a marcar a sabatina, mas a data precisou ser adiada por causa da demora no envio da mensagem presidencial que oficializaria a indicação.
É justamente aí que surge a virada mais reveladora desse processo.
A indicação de Messias foi anunciada por Lula em novembro, mas só formalizada meses depois.
Ou seja, o governo demorou a cumprir a etapa básica que permitia ao Senado tocar o rito.
Agora, com a sabatina finalmente marcada, o movimento é de aceleração total nos bastidores para garantir apoio e reduzir riscos.
O que essa sequência mostra?
Ela também depende de timing político, articulação direta com lideranças do Congresso e construção antecipada de maioria.
Perto do momento decisivo, o ponto principal fica claro.
A reunião entre Jorge Messias e Davi Alcolumbre, realizada antes da sabatina e de forma reservada, revela o peso real das negociações políticas na reta final da indicação ao STF.
Enquanto o rito oficial se prepara para começar na CCJ, a batalha mais importante já vinha sendo travada nos corredores do Senado.
E é por isso que esse encontro chama tanta atenção.
Não por mudar as regras, mas por escancarar como elas são cercadas por articulações silenciosas.
No papel, a sabatina desta quarta-feira será o teste público.
Na prática, parte decisiva do caminho de Messias já foi pavimentada antes mesmo da primeira pergunta ser feita.