A derrota foi imediata, pública e impossível de disfarçar.
Logo após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, o governo Lula tentou controlar os danos, mas abriu uma nova frente de desgaste ao cobrar explicações da própria Casa que derrubou o nome.
A reação partiu do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, que disse que o Planalto recebe a decisão com serenidade.
Na mesma fala, porém, afirmou que agora cabe ao Senado explicar por que desaprovou o indicado.
A pergunta que ficou no ar foi simples.
Se o governo diz que aceita o resultado, por que transfere ao Senado o ônus de justificar uma decisão política que faz parte de sua prerrogativa?
A resposta está no tamanho do revés.
Jorge Messias, atual chefe da Advocacia-Geral da União, foi rejeitado por 42 votos contrários e 34 favoráveis, numa sessão com 79 dos 81 senadores presentes.
Não foi uma derrota apertada, nem um acidente de percurso.
Foi uma sinalização clara de que o governo não conseguiu construir apoio suficiente nem para uma indicação ao STF, uma das mais sensíveis e simbólicas de qualquer mandato presidencial.
Guimarães tentou sustentar a narrativa de que o nome barrado reunia todas as condições exigidas pela Constituição e pelo regimento do Senado.
Disse que não havia restrições à conduta, ao preparo intelectual e ao compromisso de Messias com a Constituição.
Foi além.
Chamou o advogado-geral da União de “um dos quadros mais qualificados do ambiente jurídico do Brasil” e destacou sua atuação na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça, classificada como diferenciada pelo comportamento, pelo jeito e pelos compromissos demonstrados.
Mas aí surge outra pergunta inevitável.
Se o indicado era, nas palavras do próprio governo, uma das melhores indicações da República, como explicar uma rejeição tão expressiva?
Só que esse movimento também expõe uma contradição.
Ao mesmo tempo em que tenta preservar a imagem de Messias, o governo acaba admitindo, ainda que indiretamente, que falhou na articulação política para aprovar um nome que considerava irretocável.
O detalhe que reativa a crise está justamente no bastidor.
Lula demorou quatro meses para formalizar a indicação de Messias.
Nesse intervalo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pressionava pela escolha do senador Rodrigo Pacheco e chegou a atuar contra o advogado-geral da União nos bastidores.
Ou seja, a rejeição não nasceu no plenário.
Ela foi sendo construída antes, enquanto o governo insistia num nome que enfrentava resistência dentro da própria engrenagem política que precisaria avalizá-lo.
Guimarães também citou uma frase usada por Messias para se definir.
Segundo o ministro, o indicado se apresenta como “escravo da Constituição”.
A fala foi usada para reforçar a imagem de fidelidade institucional.
Ainda assim, não bastou.
E esse é o ponto mais sensível de toda a história.
O governo tentou vender qualificação técnica e compromisso constitucional, mas esbarrou numa realidade política que não conseguiu dominar.
O peso do episódio aumenta quando se olha para o tamanho histórico da rejeição.
Jorge Messias foi o décimo primeiro nome indicado por Lula ao STF e o primeiro barrado pelo Senado em 132 anos.
O último presidente que não conseguiu emplacar seu candidato para a Corte foi Floriano Peixoto, em 1894. Não se trata, portanto, de uma derrota comum.
Trata-se de um fato raríssimo, com forte impacto político e institucional.
Então qual é o ponto principal?
Perto do fim, o que se revela é algo maior: a rejeição virou uma das principais derrotas políticas do governo federal no Legislativo.
Ao cobrar explicações do Senado, o Planalto tenta dividir o desgaste.
Mas o placar, o contexto e os bastidores apontam para outro diagnóstico.
Quando um governo escolhe, demora, insiste e perde, a explicação mais incômoda não está só no voto dos senadores.
Está também na incapacidade de transformar vontade presidencial em maioria real.