Antes mesmo de o painel revelar o placar, o resultado já parecia decidido nos bastidores do Senado.
Foi nesse clima que o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, se inclinou para falar com o senador Jaques Wagner e cravou, em voz baixa, a derrota de Jorge Messias.
A frase foi curta, direta e precisa.
“Vai perder por oito.
” Minutos depois, a previsão se confirmou exatamente como havia sido dita: 42 votos contrários e 34 favoráveis à indicação de Messias ao Supremo Tribunal Federal.
A cena chama atenção por um motivo simples.
Como o presidente do Senado conseguiu antecipar com tanta segurança um placar tão específico antes da abertura oficial da votação?
Messias, atual advogado-geral da União, havia sido indicado por Lula em novembro do ano passado para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.
Mas a tramitação não andou com rapidez.
A mensagem presidencial só chegou ao Senado em 1º de abril deste ano, quatro meses depois da publicação da indicação no Diário Oficial da União.
Por que essa demora importa?
Ainda assim, o esforço não foi suficiente.
Antes da votação em plenário, Messias passou pela Comissão de Constituição e Justiça e teve o nome aprovado por 16 votos a 11. Na sabatina, abordou temas sensíveis e procurou se posicionar de forma ampla.
Disse que o 8 de janeiro de 2023 foi “um dos episódios mais tristes da história recente” e afirmou que os atos daquela data fizeram “muito mal ao país”.
Também se manifestou contra o aborto, a favor da liberdade de imprensa e chegou a criticar abusos do Poder Judiciário.
Se o desempenho na CCJ abriu caminho, por que o plenário fechou a porta?
Esse é o ponto central da derrota.
A indicação de Lula enfrentava resistência política real, e ela não foi superada nem com a presença de ministros do governo na sabatina, como José Múcio e Wellington Dias, nem com a mobilização de aliados.
O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, também acompanhou a sessão presencialmente, sinal de que o caso era tratado como prioridade.
No meio dessa disputa, surgiu uma contradição que ajuda a explicar o desfecho.
O governo demorou meses para enviar formalmente a indicação ao Senado, numa tentativa de construir apoio.
Mas, ao mesmo tempo, o nome continuou cercado de desgaste.
Alcolumbre, por exemplo, preferia que Lula tivesse indicado o senador Rodrigo Pacheco.
Isso já mostrava que a escolha de Messias não unificava nem o ambiente que deveria conduzir a votação.
E houve mais.
Na manhã da votação, Alcolumbre liberou seus aliados para votar contra a indicação.
O gesto teve peso político imediato.
Não era apenas neutralidade.
Era um sinal claro de que a candidatura chegava ao plenário sem proteção suficiente no comando da Casa.
O incômodo do presidente do Senado também foi alimentado por episódios recentes.
Um deles foi o vazamento da informação sobre um encontro secreto entre Alcolumbre e Messias na residência do ministro Cristiano Zanin, na semana anterior.
Para Alcolumbre, o responsável pelo vazamento teria sido o próprio Messias.
Outro fator de irritação foi a pressão de pastores evangélicos sobre senadores, movimento que, segundo a informação relatada, era liberado por André Mendonça.
Na avaliação de Alcolumbre, o ministro do STF tentava emplacar o aliado como forma de vingança pelo tempo que ele próprio precisou esperar para ser sabatinado.
No fim, a frase sussurrada antes do resultado resumiu melhor do que qualquer discurso o que já estava consolidado nos bastidores.
A derrota de Jorge Messias não foi uma surpresa de última hora.
Foi a confirmação pública de uma rejeição que já circulava entre senadores, mesmo depois de meses de articulação do governo Lula.
E é justamente aí que está o dado mais revelador.
O Planalto tentou ganhar tempo, buscou apoio, levou ministros, enfrentou a sabatina e apostou na aprovação.
Mas, quando o placar apareceu, o que se viu foi outra coisa: o governo não só perdeu, como perdeu exatamente pela margem que o presidente do Senado já conhecia antes de a votação ser aberta.