A derrota foi histórica, mas a reação do PT tentou deslocar o foco.
Depois de o Senado barrar Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, Fernando Haddad afirmou que a rejeição do nome indicado por Lula representa um “enfraquecimento da instituição Presidência da República”.
A declaração foi dada nesta quinta-feira, 30, um dia após a votação que impôs ao governo um revés raro e politicamente pesado.
O que torna esse episódio tão relevante?
Não foi apenas uma derrota comum em plenário.
Messias recebeu 42 votos contrários e 34 favoráveis, tornando-se o primeiro indicado ao STF rejeitado pelo Senado desde 1894. O dado, por si só, já expõe o tamanho do desgaste.
E é justamente aí que entra a fala de Haddad, que procurou apresentar o resultado não como uma recusa ao nome escolhido por Lula, mas como um abalo institucional mais amplo.
Mas essa interpretação se sustenta?
Para ele, o Senado não apenas recusou um indicado, mas enfraqueceu a própria Presidência ao rejeitar uma escolha do chefe do Executivo para a Corte.
Ao defender Messias, o ex-ministro da Fazenda insistiu que o advogado público levaria ao Supremo um perfil técnico e um “olhar de Estado”.
Segundo ele, esse seria um diferencial importante justamente por Messias não vir da advocacia privada.
Na entrevista ao portal Metrópoles, Haddad afirmou que o petista seria um reforço para o tribunal.
Disse ainda que a atuação de Messias esteve ligada a frentes sensíveis do governo, como segurança pública, combate ao crime organizado e enfrentamento à corrupção.
Foi nesse ponto que a defesa ganhou um tom mais político e mais ambicioso.
Por quê?
Ele citou a instalação de uma delegacia de combate ao crime organizado na Receita Federal e afirmou que havia uma organização, sob liderança de Messias, para apoiar esse trabalho de combate à corrupção.
Também declarou que a Advocacia-Geral da União esteve de prontidão para ajudar ministérios em medidas que, segundo ele, precisavam ser executadas.
No meio da tentativa de reverter a narrativa da derrota, surgiu um detalhe revelador.
Haddad afirmou que o Senado teria ignorado a atuação de Messias no enfrentamento a esquemas criminosos.
E foi além: mencionou casos como Reag, Master, Refit e INSS para sustentar que o indicado teve papel de sustentação ao Ministério da Fazenda no combate a esquemas de corrupção.
A pergunta inevitável é simples: se o currículo e a atuação eram tão decisivos, por que o Senado rejeitou o nome de forma tão contundente?
O próprio material disponível não traz a resposta dos senadores, mas o placar fala por si.
Quando uma indicação ao STF é barrada pela primeira vez em mais de um século, o problema deixa de ser apenas técnico e passa a revelar uma derrota política de grandes proporções para o Planalto.
E aqui aparece a contradição mais evidente.
Apesar de classificar a rejeição como um enfraquecimento da Presidência, Haddad também sustentou que Lula sai fortalecido de embates legislativos.
Como conciliar as duas coisas?
De um lado, ele reconhece o peso institucional da derrota.
De outro, tenta preservar a imagem política do presidente.
O resultado é uma defesa que busca amortecer o impacto, mas acaba evidenciando o tamanho do revés.
Haddad admitiu, ao menos, o efeito pessoal do episódio.
Disse que a decisão teve um “gosto amargo” e reiterou que Messias seria um grande ministro do STF.
A frase resume bem o momento: o governo perdeu uma indicação central, viu sua articulação falhar no Senado e agora tenta transformar uma rejeição objetiva em debate sobre instituições.
No fim, o ponto principal está menos na justificativa apresentada e mais no que o episódio escancarou.
A fala de Haddad mostra o esforço do PT para enquadrar a derrota como um problema do sistema, e não como fracasso político do governo Lula.
Mas o fato concreto permanece.
O Senado rejeitou o nome de Jorge Messias, impôs uma derrota histórica ao Planalto e abriu uma fissura que o discurso oficial, por enquanto, não conseguiu fechar.