A morte do ministro aposentado do STF, Octavio Gallotti, aos 95 anos, virou muito mais do que uma nota de pesar em Brasília: expôs, de forma quase constrangedora, o abismo entre o Supremo que ele ajudou a construir e o STF que o brasileiro vê hoje na TV.
O próprio STF descreveu Gallotti como juiz de “rigor técnico”, “independência de seus julgamentos” e “compromisso com a Constituição”.
Edson Fachin falou em “espírito público exemplar” e “inabalável compromisso com a Constituição”.
Alexandre de Moraes disse que ele honrou o STF “acima de tudo, com Justiça”.
E é aí que muita gente travou a leitura e pensou: se isso é o que o STF chama de exemplo, o que aconteceu com a Corte atual?
STF de hoje respeita mesmo a Constituição?
Não.
A percepção majoritária entre conservadores é de um STF que estica artigos, reinterpreta textos claros e usa a Constituição como elástico para justificar decisões políticas.
Onde foi parar a tal independência de julgamentos?
Na prática, a independência deu lugar a decisões alinhadas a narrativas de esquerda, à proteção de aliados e à perseguição seletiva de opositores, especialmente da direita.
Por que o STF fala em rigor técnico e age com ativismo?
Porque o discurso oficial tenta manter a imagem institucional, enquanto a prática mostra um tribunal que legisla, interfere no Executivo e no Legislativo e entra em temas que não lhe caberiam.
O que incomoda tanto na nota de Fachin?
O contraste.
Quando Fachin fala em “construção da confiança da sociedade no Judiciário”, o brasileiro comum lembra de censura, inquéritos eternos e decisões monocráticas que atropelam o devido processo legal.
Alexandre de Moraes segue o legado de Gallotti?
Gallotti é descrito como prudente, sereno e técnico.
Moraes virou símbolo de inquéritos sem fim, decisões midiáticas e embates diretos com a direita e com conservadores.
Por que a direita vê hipocrisia nessa homenagem?
Porque o STF elogia em Gallotti exatamente aquilo que nega na prática hoje: limites de poder, respeito estrito à Constituição e distanciamento da política partidária.
O velório de Gallotti diz algo sobre o STF atual?
Sim.
Enquanto o corpo é velado no Salão Branco, muitos enxergam ali um símbolo: o fim de uma geração de ministros que ainda temia ultrapassar a linha da Constituição.
O que mudou do STF de 1988 para o de hoje?
Mudou o papel que a própria Corte se atribui.
De guardiã da Constituição, passou a protagonista política, árbitro de narrativas e, muitas vezes, ator direto no jogo de poder.
Por que a esquerda aplaude tanto o STF atual?
Porque o STF virou, na prática, um escudo para o governo e para figuras da esquerda, ao mesmo tempo em que endurece contra conservadores, opositores e críticos do sistema.
O que a morte de Gallotti revela sobre o futuro do STF?
Revela um risco: se o padrão de hoje continuar, o legado de independência e rigor técnico será apenas peça de discurso em notas oficiais, enquanto a confiança popular segue derretendo.
Octavio Gallotti integrou o STF de 1984 a 2000, atravessou a promulgação da Constituição de 1988, presidiu o STF e o TSE e ajudou a consolidar uma jurisprudência que, goste-se ou não, ainda tentava se ancorar no texto constitucional.
Não era um ministro de manchetes, mas de votos.
Agora, ao morrer, vira involuntariamente um contraste vivo – e incômodo – com a Corte atual.
Quando o STF precisa lembrar ao país que já teve ministro conhecido por prudência, discrição e técnica, a pergunta que ecoa é simples: o que foi feito desse Supremo?
Enquanto o velório é aberto ao público em Brasília e o sepultamento marcado para o Rio, o brasileiro olha para o noticiário e sente que não é só um ministro que está sendo enterrado.
É a memória de um STF que, ao menos no discurso, ainda sabia qual era o seu lugar.
E a pergunta que fica, que muitos têm medo de fazer em voz alta, mas que está na cabeça de milhões, é outra: quem vai ter coragem de resgatar esse legado antes que a confiança no Judiciário acabe de vez?