A Nicarágua de Daniel Ortega deu mais um passo rumo à ditadura total: a Assembleia Nacional, totalmente controlada pelo regime, decidiu adiar para o início de setembro a votação da reforma constitucional que PROÍBE partidos de oposição de disputar eleições.
Não é exagero, não é figura de linguagem: o plano é simples, direto e brutal – tirar a oposição do jogo pela canetada.
A mudança estava marcada para agosto, mas a copresidente Rosario Murillo anunciou que a votação será empurrada para setembro, depois de uma “consulta” com diplomatas e setores escolhidos a dedo pelo próprio regime.
Alguém ainda acredita que isso é diálogo real ou democracia funcionando?
Primeira pergunta: O que realmente está acontecendo?
Resposta: Ortega está usando uma reforma constitucional para transformar em lei aquilo que já faz na prática: eliminar qualquer chance real de alternância de poder, proibindo que partidos de oposição participem das eleições.
Murillo disse que o texto foi apresentado ao corpo diplomático e que uma comissão especial vai ouvir Supremo Tribunal, Forças Armadas, Polícia, empresários, bancos, igrejas e povos indígenas.
Parece plural, não parece?
Mas quem manda em todas essas instituições hoje?
Quem tem o poder de pressionar, punir e calar qualquer voz dissonante?
Segunda pergunta: Essa consulta é verdadeira ou encenação?
Resposta: É encenação política.
O regime controla as instituições e usa a “consulta” apenas para dar aparência de legalidade e diálogo a uma decisão já tomada nos bastidores.
A proposta mira diretamente os adversários de Ortega, que ele chama de “traidores” e “golpistas” a serviço dos Estados Unidos.
O rótulo é velho: qualquer um que discorde do governo vira inimigo do povo, vendido ao imperialismo, ameaça à pátria.
Não lembra um certo discurso que a esquerda repete há décadas?
Terceira pergunta: Por que chamar opositor de traidor?
Resposta: Porque é a forma mais fácil de justificar perseguição, prisão, exílio e agora até proibição legal de disputar eleições, tudo em nome de uma suposta defesa da pátria.
Governos e organismos internacionais criticaram a manobra.
Washington avisou que não ficará inerte diante do regime autoritário.
A União Europeia pediu eleições dentro de padrões internacionais.
E qual foi a resposta do governo nicaraguense?
Chamou as críticas de “intervencionistas e imperialistas” e soltou a frase: “Não somos vassalos de ninguém”.
Quarta pergunta: Esse discurso anti-imperialista é sincero?
Resposta: Não.
É um escudo retórico usado para blindar abusos internos.
O regime se diz soberano para perseguir opositores, mas vive politicamente apoiado por redes de esquerda que relativizam ou silenciam esses abusos.
Enquanto isso, o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, já avisou que, ao tomar posse, vai romper relações diplomáticas com Manágua e Havana.
Ele foi direto: não vai manter laços com tiranias.
Ou seja, enquanto parte da esquerda passa pano, um governo alinhado a posições mais duras contra ditaduras decide cortar o cordão.
Quinta pergunta: Por que romper com Nicarágua e Cuba?
Resposta: Para deixar claro que não é aceitável normalizar regimes que perseguem opositores, manipulam eleições e usam o Estado para se eternizar no poder.
Vale lembrar: as eleições gerais na Nicarágua, que seriam neste ano, já tinham sido empurradas para 2027 por outra reforma que aumentou o mandato presidencial de cinco para seis anos.
Ortega, de 80 anos, e Murillo, de 75, estão no poder desde 2007. E desde 2018 enfrentam denúncias de repressão violenta a protestos, com mais de 300 mortos segundo dados da ONU.
Sexta pergunta: O que significa adiar eleição e ampliar mandato?
Resposta: Significa alongar o tempo no poder sem dar ao povo a chance real de escolher outro caminho, criando um ciclo de poder quase vitalício disfarçado de legalidade.
Agora, com a nova reforma, o roteiro fica completo: primeiro, alonga o mandato; depois, adia a eleição; por fim, proíbe a oposição de concorrer.
Resultado?
Eleição de fachada, urna aberta, mas escolha fechada.
Isso é democracia ou teatro autoritário?
Sétima pergunta: Pode existir eleição sem oposição?
Sem oposição, o processo vira apenas um ritual para legitimar quem já está mandando.
O mais revoltante é ver como esse tipo de regime ainda é romantizado por setores da esquerda latino-americana, que adoram falar de “povo”, “democracia” e “resistência”, mas fecham os olhos quando o ditador é “companheiro” ideológico.
Quando é governo de esquerda perseguindo opositor, aí vira “complexidade do contexto político”, “narrativa golpista”, “defesa da soberania”.
A hipocrisia é gritante.
Oitava pergunta: Por que parte da esquerda se cala?
Resposta: Porque muitos preferem proteger o projeto ideológico do que defender princípios democráticos universais, aceitando abusos quando vêm do próprio campo político.
Enquanto isso, quem é de direita e conservador olha para esse cenário e enxerga um alerta em letras garrafais: é assim que começa, é assim que se consolida.
Primeiro, demonizam a oposição.
Depois, criminalizam.
Em seguida, usam leis, tribunais e reformas para fechar o cerco.
Quando o povo percebe, já não tem mais a quem recorrer.
Nona pergunta: Isso pode servir de alerta para o Brasil?
Resposta: Sim.
Sempre que o poder começa a tratar opositores como inimigos do Estado e tenta controlar o jogo político por cima da vontade popular, o risco de autoritarismo cresce.
A Nicarágua hoje é um espelho incômodo: mostra até onde vai um projeto de poder quando não encontra freios institucionais e quando parte da comunidade internacional escolhe relativizar porque o ditador é “do lado certo” da narrativa.
E mostra também como a linguagem de “defesa da democracia” pode ser sequestrada por quem, na prática, está destruindo qualquer traço dela.
Décima pergunta: O que está em jogo de verdade?
Resposta: Está em jogo o princípio básico de qualquer democracia: o direito do povo de escolher, criticar, alternar e tirar do poder quem governa mal.
Sem oposição livre, esse direito simplesmente deixa de existir.
A reforma que proíbe a oposição na Nicarágua não é um detalhe jurídico.
É a assinatura oficial de um regime que já não tem vergonha de se assumir como ditadura.
E quem ainda tenta dourar isso com discurso ideológico mostra claramente de que lado está: não do lado da liberdade, mas do lado do poder a qualquer custo.