A filha de Elize Matsunaga, protagonista de um dos crimes mais chocantes do Brasil e estrela de documentário na Netflix, recebeu autorização da Vara da Infância e da Juventude de Pinheiros para viajar ao exterior, com destino a Londres e Punta Cana.
A adolescente está sob guarda dos avós paternos desde 2012, e eles precisaram recorrer à Justiça para suprir o consentimento exigido por lei, já que o pai é falecido e a mãe está proibida de manter contato por decisão judicial.
Na teoria, tudo segue o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): viagem internacional de menor precisa da autorização de ambos os pais, e, na falta disso, entra em cena o juiz.
Na prática, porém, o caso reacende uma pergunta incômoda: por que quando envolve nome famoso, caso midiático e história que virou série, o Judiciário parece funcionar com uma sensibilidade e rapidez que o brasileiro comum nunca vê?
Quantas famílias simples conseguem isso?
Famílias comuns, sem advogado caro e sem caso famoso, raramente conseguem decisões rápidas e detalhadas assim.
A maioria enfrenta meses ou anos de espera, mesmo quando o pedido é simples e claramente benéfico para a criança.
Por que tanta agilidade nesse caso?
Onde está a igualdade de tratamento?
Na prática, ela não aparece.
O discurso é de igualdade, mas o tratamento muda quando há mídia, nome conhecido ou caso que já virou documentário e debate nacional.
Por que o sistema parece seletivo assim?
Quem garante o mesmo direito ao povo?
Ninguém garante de forma efetiva.
O cidadão comum depende de defensorias sobrecarregadas, prazos intermináveis e decisões que demoram tanto que muitas vezes perdem o sentido quando finalmente saem.
Por que o caso gera tanta revolta?
Porque o nome Elize Matsunaga remete a um crime brutal, amplamente divulgado, e qualquer decisão envolvendo esse universo reacende a sensação de impunidade, espetáculo e distanciamento entre Justiça e povo.
O princípio do melhor interesse vale para todos?
Na lei, sim.
Na prática, não.
Crianças de famílias pobres, em situação de risco, muitas vezes não conseguem nem vaga em escola, quanto mais autorização rápida para uma viagem internacional benéfica.
Por que o Judiciário é tão contraditório?
Porque oscila entre rigidez extrema em casos simples e flexibilidade surpreendente em processos midiáticos, criando a percepção de que há dois pesos e duas medidas dentro do mesmo sistema.
O brasileiro ainda confia na Justiça?
Cada caso como esse desgasta um pouco mais a confiança.
A sensação é de cansaço, descrédito e de que o sistema funciona melhor para quem tem nome, dinheiro ou repercussão.
Até quando vamos aceitar isso?
Enquanto a sociedade não cobrar com força igualdade real de tratamento, transparência e prioridade para o cidadão comum, decisões assim continuarão parecendo privilégios disfarçados de “técnica jurídica”.
O caso da filha de Elize expõe um ponto central: ninguém está questionando o direito da adolescente a ter oportunidades, viagens e desenvolvimento cultural.
A questão é outra: por que o mesmo cuidado, a mesma pressa e o mesmo zelo não aparecem quando a criança é filha de pedreiro, diarista, motorista de aplicativo?
Enquanto o discurso oficial fala em proteção integral, melhor interesse e direitos da criança, o brasileiro olha para a realidade e vê um Judiciário que se move como tartaruga para uns e como foguete para outros.
E é exatamente essa sensação de injustiça silenciosa que está fazendo o povo perder a paciência com o sistema inteiro.