A Agência Nacional do Cinema (Ancine) autuou a produtora Go Up Entertainment por causa de “Dark Horse”, filme estrangeiro que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro e sua campanha de 2018. A acusação: ter filmado no Brasil sem cumprir toda a burocracia exigida para produções internacionais.
Na prática, a agência abriu um processo administrativo que pode gerar multa de até R$ 100 mil, mas não impede automaticamente o lançamento do longa nos cinemas.
Mesmo assim, o recado político ficou claro para muita gente: quando o assunto envolve Bolsonaro, a lupa do Estado parece ficar bem mais pesada.
Quem foi autuado pela Ancine?
A Go Up Entertainment, produtora brasileira responsável pelas filmagens de “Dark Horse” no país.
Por que a produtora foi autuada agora?
Porque a fiscalização concluiu que a empresa não fez a comunicação prévia obrigatória para filmagens estrangeiras em território nacional.
A legislação determina que produções internacionais sejam assumidas por empresa brasileira registrada na Ancine e que, antes do início das filmagens, sejam entregues documentos como contrato com a produtora estrangeira, plano de trabalho e identificação dos profissionais vindos de fora.
A Go Up é registrada desde julho de 2025, mas não teria formalizado tudo isso para “Dark Horse”.
O detalhe que chama atenção é o timing e o peso dado ao caso.
O filme mobilizou elenco, equipe técnica, equipamentos e estrutura em São Paulo entre outubro e novembro de 2025, com cenas em vários pontos da cidade.
Só depois de tudo pronto é que a máquina estatal resolveu agir com força máxima.
Por que só agora essa fiscalização pesada?
Porque a repercussão do filme cresceu e o tema Bolsonaro voltou ao centro do debate.
A própria distribuidora registrou “Dark Horse” como obra estrangeira, já que o filme é falado em inglês e tem diretor, roteiristas e protagonistas americanos.
A Europa Filmes já protocolou o Registro de Obra Estrangeira e planeja um lançamento amplo, em centenas de salas brasileiras.
A autuação impede o lançamento do filme?
Não, a autuação não bloqueia automaticamente o lançamento.
Mas a Ancine pode usar pendências burocráticas para atrasar ou dificultar o processo, exigindo regularizações antes de liberar o Certificado de Registro de Título e a tramitação no Ministério da Justiça para classificação indicativa.
É exatamente esse tipo de poder que preocupa quem vê na agência um instrumento de pressão política.
Afinal, quantos filmes alinhados à esquerda enfrentam esse mesmo rigor?
Não há notícia de onda semelhante de autuações contra produções simpáticas à esquerda.
Enquanto isso, “Dark Horse” já vinha cercado de polêmicas.
Conversas obtidas em investigação sobre o Banco Master mostraram que o senador Flávio Bolsonaro procurou o então controlador Daniel Vorcaro para buscar investidores privados para o longa.
Flávio confirmou que buscou apoio financeiro, mas negou qualquer oferta de benefício em troca.
A produtora afirma que não recebeu dinheiro de Vorcaro nem de empresas ligadas a ele.
A origem completa dos recursos, porém, ainda não foi totalmente detalhada.
Isso torna o filme ilegal automaticamente?
Não, buscar investidores privados para um filme não é crime por si só.
Além disso, a dona da Go Up, Karina Ferreira da Gama, é investigada em outro procedimento pela Polícia Civil de São Paulo, envolvendo um contrato da Prefeitura com o Instituto Conhecer Brasil, presidido por ela, para instalar pontos públicos de internet.
A polícia apura possível confusão patrimonial entre o instituto e a produtora e se houve uso de recursos públicos na produção do filme.
Tanto a Prefeitura quanto Karina negam qualquer desvio.
Há prova de dinheiro público no filme?
Até agora, não há comprovação divulgada de uso de verba pública na produção.
Enquanto as investigações seguem, a Ancine também pediu informações à Spcine, ligada à Prefeitura de São Paulo, para saber se as filmagens foram devidamente comunicadas à São Paulo Film Commission, responsável por autorizar uso de espaços públicos, ocupação de solo e interferências no trânsito.
Por que a Ancine mira tanto esse caso?
Porque o tema Bolsonaro transforma qualquer detalhe técnico em batalha política.
“Dark Horse” é dirigido por Cyrus Nowrasteh e traz Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em “A Paixão de Cristo”, no papel de Jair Bolsonaro.
O filme dramatiza a ascensão política do ex-presidente, a campanha de 2018 e o atentado em Juiz de Fora.
O ex-secretário de Cultura Mario Frias interpreta o médico que o operou após o ataque.
Por que a esquerda teme esse filme?
Porque ele pode disputar a narrativa sobre 2018 e o atentado.
A pergunta que fica para muitos brasileiros é simples: quando a obra favorece a narrativa progressista, o sistema costuma abrir portas, editais, prêmios e tapete vermelho.
Quando a história mostra o lado de Bolsonaro, a máquina entra em modo punitivo, com autuações, suspeitas e burocracia sufocante.
Existe tratamento igual entre direita e esquerda?
Os fatos recentes indicam um padrão de seletividade e dois pesos, duas medidas.
No fim, a autuação da Ancine contra “Dark Horse” virou símbolo de algo maior: o uso de estruturas estatais para controlar quem pode ou não contar certas histórias no Brasil.
E a pergunta que ecoa entre conservadores é inevitável: até quando o cinema será território quase exclusivo de uma narrativa só?
O que está realmente em jogo aqui?
A liberdade de contar a versão conservadora da história recente do Brasil.