Um novo estudo derruba a velha desculpa de que “mosquito gosta mais de um tipo de sangue”.
A verdade é bem mais incômoda: o que decide quem vira banquete de mosquito é o cheiro do corpo, moldado pelas bactérias que vivem na sua pele.
Pesquisadores da Universidade Internacional da Flórida analisaram 119 pessoas e três espécies de mosquitos: o Aedes aegypti (dengue, zika, chikungunya, febre amarela), o Aedes albopictus (mosquito-tigre asiático) e o Culex quinquefasciatus (pernilongo doméstico).
Resultado?
Não existe “uma pessoa irresistível” para todos.
Cada espécie escolhe a vítima de acordo com combinações específicas de odores.
Por que alguns sofrem mais picadas?
O estudo mostrou que o Aedes aegypti teve leve preferência por homens, enquanto os outros dois não ligaram para sexo biológico.
Mais chocante foi ver que certas substâncias naturais do corpo afastam alguns mosquitos, enquanto outras praticamente convidam o inseto para o ataque.
Quem atrai menos o Aedes aegypti?
Esses compostos aromáticos, comuns em óleos essenciais e plantas, foram ligados a menor interesse do Aedes aegypti e do pernilongo doméstico.
Já o mosquito-tigre asiático se mostrou mais atraído por pessoas que liberam mais cetonas.
O que realmente chama o mosquito?
Os compostos voláteis produzidos quando bactérias da pele transformam suor e oleosidade em odores específicos detectados pelos insetos.
Os cientistas identificaram 246 tipos de microrganismos na pele dos voluntários.
Três bactérias apareceram com frequência nos perfis mais atrativos para as três espécies: Corynebacterium kefirresidentii, Cutibacterium granulosum e uma variante de Staphylococcus epidermidis.
Quais bactérias mais atraem picadas?
Corynebacterium kefirresidentii, Cutibacterium granulosum e uma variante de Staphylococcus epidermidis, presentes em maior quantidade nos mais picados.
Já quem era menos interessante para o Aedes aegypti e para o pernilongo tinha mais Pseudomonas aeruginosa na pele – justamente ausente nos perfis mais atacados.
Ou seja: enquanto o discurso oficial foca só em repelente e fumacê, a ciência mostra que a guerra contra dengue e pernilongo passa também pela microbiota da pele.
Podemos mudar essas bactérias agora?
Ainda não.
O estudo não prova que seja possível alterar a microbiota de propósito para evitar picadas de forma segura e eficaz.
Os autores deixam claro: não dá para prometer “banho milagroso” ou produto caseiro que troque suas bactérias boas e ruins.
Mas entender esse mapa de odores abre caminho para repelentes muito mais inteligentes, que imitem quem o mosquito não gosta de picar.
Como isso pode virar novo repelente?
Identificando compostos que afastam mosquitos e reproduzindo essas substâncias em fórmulas específicas para cada espécie.
Enquanto isso, o brasileiro continua convivendo com dengue, zika e chikungunya, ouvindo campanhas repetidas ano após ano, sem que o debate avance para o que a ciência mais moderna já está enxergando: o alvo não é só o mosquito, é também o cheiro que o nosso próprio corpo emite.
Por que cada espécie escolhe vítimas?
Porque cada tipo de mosquito responde a combinações diferentes de odores e compostos químicos do corpo humano.
A pesquisa mostra que “mosquito não escolhe vítima à toa”.
Há lógica, há química, há biologia.
E, se há lógica, dá para agir com mais estratégia.
O que muda para sua família?
Muda a compreensão de risco: algumas pessoas da casa podem ser naturalmente mais atraentes para certas espécies e precisar de proteção redobrada.
Os cientistas reforçam: desvendar essa complexidade pode ajudar a criar estratégias para reduzir odores que atraem mosquitos ou aumentar compostos naturalmente repelentes.
Isso acaba com o risco de dengue?
Não.
Mas pode, no futuro, complementar as medidas atuais com repelentes mais eficazes e personalizados.
No fim, a pergunta que fica é simples: se a ciência já está mostrando quem o mosquito escolhe e por quê, quanto tempo ainda vamos demorar para transformar esse conhecimento em proteção real no dia a dia das casas brasileiras?