No meio de um quadro sobre cirurgia plástica, em plena TV aberta, Ratinho olhou para o sertanejo Tiago Piquilo e disparou, sem filtro: “Você pintou o cabelo?
Meu Deus… Você tá com uma cara de viado”.
O comentário, feito ao vivo no Programa do Ratinho, caiu como bomba nas redes e reacendeu o debate sobre até onde a televisão brasileira vai em nome do “humor”.
Não foi um escorregão isolado.
O próprio histórico recente do apresentador mostra que esse tipo de fala virou rotina, não exceção.
Em maio, ele já tinha reclamado de cenas de afeto entre pessoas do mesmo sexo em novelas, dizendo que “quando vejo dois homens se beijando, eu já fico preocupado” e que “no meu tempo, que o negócio funcionava, não tinha muito isso”.
Agora, em agosto, volta a atacar com piada de gosto duvidoso em cima de um convidado, diante de milhões de telespectadores.
Por que Ratinho insiste nessas falas?
Até quando o SBT vai bancar?
Enquanto o programa seguir dando retorno comercial e audiência, a emissora tende a relevar, mesmo com desgaste de imagem e pressão pública crescente.
A situação fica ainda mais delicada quando se lembra que, em março, Ratinho também atacou a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), ao criticar o fato de uma mulher trans assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara.
Na ocasião, ele afirmou que “ela não é mulher, ela é trans” e que “mulher pra ser mulher tem que ter útero, tem que menstruar”.
Ou seja: não é um caso isolado, é uma linha de pensamento que se repete.
Isso é só opinião pessoal dele?
É opinião, mas dita de um dos maiores palcos da TV, com peso político, cultural e comercial, o que amplia o impacto e a responsabilidade do que é falado.
O contraste é gritante: enquanto parte da mídia e da esquerda cobra “tolerância” e “respeito” em tudo, quando a polêmica vem de um ícone popular como Ratinho, o tratamento costuma ser bem mais cuidadoso.
Fala-se em “polêmica”, “declaração controversa”, mas raramente se vê a mesma fúria que aparece quando o alvo é alguém da direita política tradicional.
Por que a reação parece seletiva?
Porque muitos formadores de opinião evitam bater de frente com figuras populares de massa, temendo rejeição do público e perda de audiência, e preferem concentrar ataques em alvos políticos mais óbvios.
Ratinho, por sua vez, sempre se vendeu como a voz do “povão”, do discurso direto, sem frescura, sem patrulha.
E é justamente aí que mora a contradição: até que ponto “falar o que pensa” justifica humilhar ou rotular alguém ao vivo, usando termos que boa parte da sociedade já não aceita mais?
Isso ainda é visto como humor?
Para uma parcela do público, sim, mas cresce o número de pessoas que enxerga esse tipo de fala como desrespeito, não como piada inocente.
O SBT, que construiu sua imagem em cima de entretenimento familiar, fica numa encruzilhada.
De um lado, tem um dos apresentadores mais antigos e lucrativos da casa, com mais de 25 anos de programa no ar.
Do outro, uma pressão cada vez maior por responsabilidade no que é dito em rede nacional.
O SBT vai punir o apresentador?
Historicamente, a emissora costuma contornar crises com notas brandas ou silêncio, apostando no esquecimento do público.
Enquanto isso, o público se divide: há quem defenda Ratinho em nome da “liberdade de expressão” e há quem cobre limites claros para ataques pessoais e comentários considerados homofóbicos ou transfóbicos.
O fato é que, a cada nova fala, a conta vai chegando — para ele e para a emissora.
Qual o impacto para a imagem dele?
A curto prazo, ele mantém relevância e repercussão.
A longo prazo, acumula um rastro de polêmicas que pode pesar em contratos, parcerias e na própria permanência no ar.
E o que isso revela sobre a TV brasileira?
Revela que ainda há um abismo entre o discurso de respeito e a prática diária em programas populares, onde o improviso e a busca por audiência muitas vezes atropelam qualquer cuidado.
No fim, fica a pergunta que muita gente já está fazendo em casa: até quando a televisão vai tratar esse tipo de comentário como “normal”, só porque vem de um veterano querido do público?
A pressão pode derrubar o programa?
Não há sinal imediato disso, mas, se as polêmicas continuarem se acumulando e atingirem anunciantes, o cenário pode mudar rapidamente.
O jogo pode virar contra Ratinho?
Se o desgaste de imagem superar o retorno de audiência, a própria emissora pode ser forçada a rever a blindagem histórica em torno do apresentador.