Lula saiu das convenções com palanques montados nos oito maiores colégios eleitorais, enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta resistência, neutralidade calculada e acordos que, na prática, favorecem o PT.
São Paulo, Minas, Rio, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará concentram quase 70% dos eleitores e mostram como o sistema se organiza para manter a esquerda no comando.
Em São Paulo, Lula empilha ex-ministros e velhos caciques em torno de Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva e Márcio França, vendendo a mesma “frente ampla” que levou o petista de volta ao Planalto.
Do outro lado, Tarcísio de Freitas apoia Flávio, mas o partido dele, Republicanos, prefere ficar neutro nacionalmente.
Neutralidade que, curiosamente, nunca aparece quando é para isolar a direita.
Por que tantos partidos escolheram neutralidade agora?
A neutralidade abre espaço para Lula negociar nos bastidores e dificulta a consolidação de um palanque forte para Flávio Bolsonaro, especialmente no Sudeste.
Em Minas Gerais, nenhum dos dois conseguiu o palanque dos sonhos, mas Lula ainda assim emplaca candidatura própria com Patrus Ananias, enquanto Flávio Bolsonaro correu contra o relógio para lançar Flávio Roscoe.
O Republicanos barrou Cleitinho, líder nas pesquisas, depois de idas e vindas em meio a um drama familiar.
Resultado: o estado decisivo fica fragmentado, e o sistema respira aliviado.
Quem ganha com Minas fragmentada assim?
Um cenário dividido reduz o impacto de um grande palanque conservador e facilita a vida de quem já conta com a máquina federal e alianças tradicionais, como Lula.
No Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo, o cerco é ainda mais visível.
O PL teve de montar chapa puro sangue depois que aliados recuaram.
Cláudio Castro desistiu do Senado após operações da Polícia Federal, Márcio Canella também saiu de cena e a federação União Brasil e PP abandonou o palanque de Flávio.
Enquanto isso, Eduardo Paes, aliado de Lula, lidera pesquisas e ainda ganha tempo de TV muito maior.
Por que o PL ficou tão isolado no Rio?
Na Bahia, Lula continua forte, mesmo com o escândalo do Banco Master atingindo em cheio Jaques Wagner, figura central do PT local.
Wagner é investigado, Rui Costa está na chapa, e ainda assim o assunto tende a ser abafado por um pacto de não agressão, já que uma empresa de ACM Neto também recebeu milhões ligados ao mesmo grupo financeiro.
Por que o escândalo não domina o debate?
No Paraná, Flávio Bolsonaro monta um palanque simbólico com Sergio Moro e Deltan Dallagnol, tentando resgatar a Lava Jato.
Lula responde com Gleisi Hoffmann e a velha narrativa de que tudo não passou de perseguição política.
A esquerda tenta reescrever a história, enquanto parte da direita se divide entre o grupo de Flávio e o de Ratinho Jr.
A Lava Jato ainda pesa no eleitorado?
Sim, mas a divisão na direita e o discurso insistente da esquerda de que foi tudo político enfraquecem o impacto eleitoral da operação.
No Rio Grande do Sul, o contraste é gritante.
Flávio Bolsonaro consegue o que não tem no plano nacional: apoio de PP, Novo, Republicanos e Podemos em torno de Luciano Zucco.
Já o PT, pela primeira vez, não lança candidato próprio ao governo e se pendura em Juliana Brizola, com Manuela d’Ávila e Paulo Pimenta tentando salvar o palanque de Lula.
Por que o PT recuou no Rio Grande do Sul?
A direção nacional preferiu uma composição para tentar segurar espaço regional, mesmo sem força suficiente para liderar a cabeça de chapa.
Em Pernambuco, Lula tentou um palanque duplo com Raquel Lyra e João Campos, mas a jogada fracassou.
Pressionado pelo PSB de Alckmin, o presidente escolheu João Campos e irritou parte do PT local, que agora corre para apoiar a governadora.
Mesmo assim, Raquel mantém neutralidade e evita abraçar Flávio Bolsonaro, repetindo a tática de 2022.
Por que tantos governadores evitam assumir lado nacional?
Porque preferem manter acesso a verbas federais e negociar com qualquer governo, o que, na prática, favorece quem já está no Planalto, hoje Lula.
No Ceará, o conflito estourou dentro do próprio bolsonarismo.
O PL local fechou apoio a Ciro Gomes em troca de espaço no Senado, e Michelle Bolsonaro reagiu dizendo que era aliança com o mal.
A crise expôs rachaduras internas e deu munição para Lula, que correu para reforçar o palanque de Elmano de Freitas e ainda colocar Cid Gomes e Lizianne Lins na disputa pelo Senado.
O que a briga no Ceará revela?
Revela que parte da direita ainda se perde em acordos regionais contraditórios, enquanto a esquerda mantém foco em garantir votos para Lula.
Lula tenta crescer no Sudeste, onde ainda encontra resistência, e segurar o domínio histórico no Nordeste.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, escolhe um vice nordestino, Alfredo Gaspar, para furar esse bloqueio e levar o discurso conservador à região que deu quase 70% dos votos válidos a Lula em 2022.
A direita consegue avançar no Nordeste?
Há espaço para crescimento, mas o peso de décadas de assistencialismo petista e o controle de máquinas estaduais tornam a disputa difícil.
Enquanto isso, Republicanos, Podemos, União Brasil e PP posam de neutros, mas a neutralidade abre caminho para Lula negociar nos bastidores e manter a velha política respirando por aparelhos de emendas, cargos e tempo de TV.
Neutralidade é realmente posição imparcial?
Na prática, não.
Quando grandes partidos se dizem neutros, acabam facilitando a vida de quem já controla o governo federal, hoje o PT.
O resultado desse xadrez é claro: o sistema se move para isolar o bolsonarismo, blindar escândalos que envolvem aliados de Lula e manter a narrativa de que só a esquerda é “responsável” para governar.
O eleitor conservador olha para esse cenário e se pergunta até quando vai aceitar que a mesma turma de sempre decida, em convenções fechadas, o futuro de mais de 100 milhões de brasileiros.
O eleitor está cansado desse jogo?
Sim, o sentimento de cansaço e desconfiança cresce, especialmente entre quem vê a direita tratada com dureza e a esquerda com complacência.
A disputa de 2026 começa mostrando que nada mudou na lógica do poder: acordos de cúpula, neutralidades convenientes, escândalos seletivamente abafados e um esforço permanente para impedir que a direita tenha o mesmo espaço que a esquerda sempre teve nos grandes estados do país.