Todo mundo lembra do caso Richthofen.
Um dos crimes mais brutais do país, pais mortos a pauladas, uma filha envolvida no plano e um Brasil inteiro chocado.
Anos depois, enquanto famílias de vítimas seguem em silêncio e dor, quem ganha holofote, roteiro caprichado e narrativa de redenção é justamente a assassina.
A mesma indústria cultural que vive apontando o dedo para a “sociedade violenta” agora abre espaço para Suzane contar sua versão, justificar ambiente familiar frio, falar de “abismo” com os pais e, no fim, aparecer como mãe amorosa, esposa dedicada e mulher “transformada”.
Onde entra o respeito às vítimas nisso tudo?
Quem está sendo colocado como protagonista agora?
Enquanto isso, o crime vira pano de fundo para cenas de Natal em família, filho no colo, casa decorada e discurso pronto de que “aquela Suzane morreu junto com os pais”.
E, para fechar o pacote, vem a frase que revolta qualquer pessoa minimamente sensata: “Deus me perdoou”.
Quem deu a ela o direito de falar em nome de Deus em rede mundial?
Quem ganha com essa narrativa vitimista?
Ganha a plataforma, que lucra com audiência e polêmica, e ganha a própria Suzane, que tenta reescrever sua imagem pública.
Ela admite que aceitou o plano, que levou os assassinos para dentro de casa, mas tenta se afastar da execução, como se fosse quase uma espectadora.
Ao mesmo tempo, reclama de assédio em supermercado, de olhares, de fotos.
E as famílias que nunca mais puderam olhar nos olhos de seus entes queridos?
Até quando o crime vai virar entretenimento?
Enquanto a sociedade se indigna, a cultura do espetáculo transforma tragédia em produto, normaliza a romantização de criminosos e testa, mais uma vez, o limite da paciência do brasileiro.
No fim, fica a sensação de que a memória das vítimas vale menos que a narrativa bem produzida da assassina arrependida.
E isso, sim, é um retrato assustador do nosso tempo.