Há algo profundamente estranho quando uma instituição vê demais de um lado e simplesmente não vê nada do outro.
Como isso acontece?
Como o mesmo órgão que sustenta acusações pesadas em certos casos passa a agir como se faltasse luz justamente quando surgem fatos envolvendo figuras do topo do poder?
A pergunta incomoda porque não trata só de omissão.
Trata de critério.
Ou da falta dele.
E qual é o centro dessa dúvida?
De um lado, a percepção de rigor extremo em processos ligados ao 8 de janeiro e aos chamados “processos do golpe”.
De outro, um silêncio quase absoluto diante de relações que, no mínimo, exigiriam apuração quando ministros do Supremo aparecem ligados a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, alvo de suspeitas graves.
Mas que relações são essas?
E por que elas chamam tanta atenção?
Aos poucos, foram surgindo viagens, contratos, mensagens, voos e conexões empresariais que passaram a cercar ministros da Corte e o banqueiro.
E é aqui que muita gente se surpreende: a lista não encolheu com o tempo.
Ela cresceu.
Quem apareceu primeiro nesse enredo?
O nome inicial foi o de Dias Toffoli.
Ele era o primeiro relator do caso Master no Supremo e tentou colocar a investigação sob sigilo total.
Ao mesmo tempo, vieram à tona informações sobre viagem ao Peru com o advogado de um dos sócios de Vorcaro e sobre a venda do resort Tayayá a um fundo operado por um cunhado do banqueiro.
Quando tentou esconder que era sócio da empresa familiar que detinha parte do resort, acabou tendo de admitir o vínculo.
Isso por si só bastaria?
Talvez não para uma condenação automática.
Mas há um detalhe que quase ninguém ignora quando o assunto é integridade pública: não é preciso provar crime de imediato para justificar investigação.
Basta que existam fatos relevantes, conexões sensíveis e potencial conflito de interesses.
E o que aconteceu depois tornou tudo ainda mais delicado.
Toffoli ainda tentou manobras incomuns no caso, como uma acareação que incluía um diretor do Banco Central.
Depois, sua saída da relatoria também gerou questionamentos, porque juízes não abandonam processos sem motivo sério, como suspeição.
Mesmo assim, a suspeição foi afastada em nota pelos colegas do Supremo.
A dúvida então mudou de lugar: se tudo era tão normal, por que tantas explicações foram necessárias?
E parou por aí?
Não.
Logo surgiram informações sobre Alexandre de Moraes.
O país tomou conhecimento de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por sua esposa.
Depois, vieram mensagens segundo as quais, às vésperas de ser preso, Vorcaro teria procurado o próprio ministro, e não sua advogada, para perguntar se ele havia “conseguido bloquear” algo.
Moraes tentou negar que fosse o destinatário, mas acabou desmentido pela imprensa.
Ainda assim, o quadro ficou pior.
Cruzamentos de dados do STF com informações do terminal de aviação executiva de Brasília apontaram a presença de Toffoli e Moraes em jatinhos de empresas ligadas a Vorcaro.
No caso de Moraes, a justificativa apresentada foi a de que os voos seriam “compensação de honorários advocatícios”.
Mas isso não resolveu o problema.
Ao contrário: se a advogada era a esposa, o que explicaria a presença do ministro?
E havia mais.
Gilmar Mendes apareceu ligado ao banqueiro ao aceitar carona de um empresário em deslocamento entre Mato Grosso e Brasília.
Nunes Marques e a esposa foram a Maceió em jato de empresa ligada a Vorcaro, em voo pago por uma advogada que atua em processos do Master.
Além disso, R$ 6,6 milhões do banco chegaram, por meio de consultoria, ao escritório de Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro.
Então o ponto é afirmar que houve crime?
Não necessariamente.
E esse é justamente o aspecto mais importante.
Uma investigação séria poderia até concluir que não houve crime algum.
Mas também poderia apontar suspeição, conflito de interesses ou condutas incompatíveis com honra, dignidade e decoro da função.
E isso muda tudo, porque a discussão deixa de ser apenas penal e passa a tocar responsabilidade institucional.
Se é assim, por que a PGR não investiga?
Essa é a pergunta que leva ao coração do problema.
O presidente da OAB-SP, Leonardo Sica, afirmou que os fatos precisam ser investigados amplamente.
Ainda assim, Paulo Gonet já arquivou pedido de investigação sobre o contrato do Master com o escritório da esposa de Moraes.
E depois declarou que investigação pressupõe indício de crime, dando a entender que não vê esses indícios.
Mas como não ver?
Quando há contratos milionários, voos em jatinhos, mensagens controversas, relações empresariais e possíveis impedimentos, o mínimo esperado seria apuração criteriosa.
No entanto, o que se vê é outra coisa: uma seletividade que pesa de um lado e desaparece do outro.
E é justamente aí que o título faz sentido.
A cegueira seletiva de Paulo Gonet não está em não enxergar qualquer fato.
Está em enxergar demais quando convém e de menos quando o alvo está perto demais do centro do poder.
O resto, se houver investigação de verdade, ainda pode revelar muito mais.