Bastou uma decisão para desmontar, em poucas linhas, um plano que parecia pronto para tomar o controle do Rio.
Mas o que exatamente virou o jogo?
A mudança veio de uma canetada no Supremo que suspendeu dois pontos centrais da nova regra criada para a eleição indireta de governador e vice no Estado.
A lei aprovada na Alerj e sancionada por Cláudio Castro previa votação aberta entre os deputados e um prazo de apenas 24 horas para desincompatibilização de quem quisesse disputar os cargos.
Parecia uma solução sob medida para uma transição rápida.
Só que não ficou de pé.
E por que isso causou tanto impacto?
Porque, ao derrubar esses trechos, Luiz Fux fez voltar a valer a regra constitucional de seis meses de desincompatibilização.
E é aqui que quase todo mundo trava: os nomes que estavam no centro da articulação ocupam cargos públicos.
Se a exigência passa a ser de seis meses, eles simplesmente deixam de atender ao prazo.
Quem sai do tabuleiro com isso?
Ficam fora, de uma vez, Douglas Ruas, secretário estadual das Cidades; Nicola Miccione, secretário estadual da Casa Civil; e André Ceciliano, secretário de Assuntos Parlamentares do governo Lula.
Todos eram citados no jogo da eleição indireta.
Todos passam a esbarrar no mesmo obstáculo.
E quando os principais nomes somem ao mesmo tempo, a pergunta seguinte surge sozinha: quem sobra?
Por enquanto, quase ninguém com força equivalente.
Aliados da direita dizem não ter outro nome em mãos além de Ruas para o mandato-tampão.
Só que Ruas também foi atingido pela nova leitura da regra.
Então por que a movimentação não parou?
Porque a decisão de Fux ainda vai ao plenário do STF.
E enquanto isso não acontece, o grupo político de Castro tenta ganhar tempo e redesenhar a estratégia.
Mas há um detalhe que muita gente não percebe de imediato: essa disputa não é apenas sobre quem ocupa o cargo por alguns meses.
O plano do PL era eleger na Alerj um nome alinhado ao governo para chegar à eleição de outubro com a máquina na mão.
Isso mudaria o peso da campanha.
E é justamente esse cenário que Eduardo Paes buscava evitar no campo jurídico, por meio do pedido apresentado pelo PSD.
Então a decisão atinge só a eleição indireta?
Não.
O que acontece depois embaralha ainda mais o cenário.
Cláudio Castro ainda mantinha a expectativa de permanecer no cargo até 4 de abril, quando se desincompatibilizaria para disputar o Senado.
Ao mesmo tempo, aguardava uma sinalização no TSE no julgamento ligado ao caso Ceperj, retomado na próxima terça-feira.
Só que, com a nova decisão, a cúpula do PL e o núcleo duro do governador passaram a discutir a renúncia até domingo, antes mesmo desse julgamento.
E por que tanta pressa?
Ou seja: a decisão no Supremo não apenas mexe na sucessão estadual, como pressiona o calendário político de quem ainda tenta preservar um projeto eleitoral maior.
Só que a confusão não para aí.
E é nesse ponto que a maioria se surpreende.
A crise pode alcançar também o comando da Alerj.
Rodrigo Bacellar, afastado da presidência da Casa pelo STF no caso TH Joias, também corre risco no julgamento do Ceperj.
Se isso acontecer, abre-se outra frente de disputa dentro do mesmo terremoto político.
E o que isso provoca na prática?
Um efeito dominó.
Um aliado de Castro já admite a possibilidade de Douglas Ruas disputar justamente a cadeira antes ocupada por Bacellar.
Repare no tamanho da reviravolta: um nome que perde espaço em uma eleição pode reaparecer em outra peça-chave do mesmo tabuleiro.
Como se não bastasse, o governo ainda prepara a saída de secretários que serão candidatos em outubro.
A previsão é de uma debandada de 14 nomes, com publicação no Diário Oficial.
Isso mostra que a decisão de Fux não caiu sobre um cenário parado.
Ela atingiu uma engrenagem em movimento, no momento em que cada cargo, cada prazo e cada renúncia tinham valor estratégico.
No fim, a reviravolta é maior do que parecia no primeiro impacto.
A decisão suspendeu regras que favoreciam uma transição rápida, retirou da corrida os nomes mais cotados, pressionou o futuro de Cláudio Castro, reacendeu o cálculo eleitoral de Eduardo Paes e ainda lançou dúvida sobre o comando da Alerj.
O ponto principal é esse: ao restaurar a exigência de seis meses de desincompatibilização, Fux não apenas mudou uma regra — ele desmontou o desenho político que estava sendo montado para controlar a sucessão no Rio.
E o que vier do plenário do STF pode, de novo, mudar tudo.