Tudo começa com uma coincidência que, sozinha, talvez passasse despercebida — mas, quando os horários entram na conta, a história muda de tamanho.
Que coincidência é essa?
A de uma agenda oficial bater com o deslocamento de uma aeronave ligada a uma empresa de Daniel Vorcaro no mesmo período em que o ministro Dias Toffoli esteve no interior de São Paulo.
Parece pouco?
Só até olhar os registros mais de perto.
O que os dados mostram exatamente?
Segundo informações divulgadas por O Globo, um Embraer Phenom 300, de matrícula PR-SAD, decolou de Brasília por volta das 11h15 de 21 de março de 2025 e pousou em Marília no início da tarde.
Até aí, seria apenas mais um voo.
Mas por que isso chamou atenção?
Porque, no mesmo dia, registros da Anac indicam que Toffoli acessou o terminal executivo do Aeroporto de Brasília por volta das 10h30. A diferença entre um horário e outro é curta demais para não levantar uma pergunta inevitável: houve relação entre a presença do ministro no terminal e o voo da aeronave?
Há confirmação oficial sobre isso?
Não.
E é justamente aí que a dúvida cresce.
Procurada por O Globo, a assessoria do STF não respondeu aos questionamentos sobre o caso.
Sem resposta, o que sobra são os rastros documentais — e eles não encerram a história, apenas empurram a leitura para a próxima pergunta.
Mas Toffoli realmente esteve em Marília naquele período?
Sim.
Informações do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região mostram que agentes do órgão viajaram à cidade entre 20 e 24 de março para prestar apoio de segurança e transporte a uma “autoridade do STF”, sem identificação nominal.
Isso por si só já chama atenção, mas há um detalhe que quase ninguém percebe: os registros da Força Aérea Brasileira confirmam que Toffoli esteve na cidade naquele fim de semana.
E o que acontece depois complica ainda mais o quadro?
No dia 24 de março, Toffoli embarcou como passageiro em uma aeronave da FAB que partiu de Marília às 11h20 com destino a São Paulo.
Esse voo havia saído de Brasília às 9h30 e pousado em Marília às 10h45, com 19 passageiros a bordo antes do embarque do ministro.
O que isso sugere?
Sugere que a parada em Marília ocorreu para buscá-lo.
E é aqui que muita gente se surpreende, porque a sequência não termina em São Paulo.
A aeronave decolou às 13h10 rumo a Foz do Iguaçu, levando 23 passageiros, entre eles Toffoli e o advogado-geral da União, Jorge Messias.
Por que Foz?
Porque autoridades participaram de uma cerimônia de assinatura e homologação de acordo emergencial sobre terras indígenas das comunidades Avá-Guarani do oeste paranaense.
Também estiveram no evento as ministras Sonia Guajajara e Esther Dweck.
Isso esclarece o destino final, mas não resolve a parte mais sensível da história: como foi o deslocamento até Marília dias antes?
E por que esse ponto continua no centro da atenção?
Porque a coincidência entre a ida de Toffoli ao terminal executivo em Brasília e o voo do jatinho ligado a empresa de Vorcaro permanece sem explicação pública.
Não há, nas informações disponíveis, uma confirmação direta de que o ministro tenha usado a aeronave.
Mas também não há resposta oficial que afaste a suspeita levantada pela sobreposição dos registros.
A história termina aí?
A FAB informa também que a aeronave retornou a Brasília no mesmo dia 24, às 22h10, com 25 passageiros a bordo.
O nome de Toffoli não aparece na lista desse voo.
Isso fecha uma parte do trajeto, mas abre outra dúvida: qual foi o caminho posterior do ministro?
No fim, o ponto principal não está apenas no voo, nem apenas na agenda.
Está no encaixe entre horários, acessos, deslocamentos e silêncios.
A coincidência entre a presença de Toffoli no terminal executivo de Brasília e a viagem da aeronave ligada a empresa de Vorcaro é o dado que sustenta toda a controvérsia.
E justamente porque a resposta oficial não veio, a pergunta continua no ar — talvez mais forte agora do que no início.