Bastou uma decisão para transformar uma polêmica global em um recado direto à indústria de tecnologia.
Mas o que levou a França a agir com mais dureza do que outros países diante do caso da Apple?
A resposta começa em uma prática que gerou indignação em consumidores do mundo todo: a redução deliberada do desempenho de iPhones mais antigos.
Como isso veio à tona?
Após investigações, foi apontado que atualizações do sistema diminuíam a velocidade de aparelhos com baterias desgastadas.
A revelação provocou críticas amplas, porque atingia um ponto sensível para qualquer usuário: a sensação de que um produto ainda funcional passava a operar pior com o tempo.
Em muitos lugares, a empresa enfrentou questionamentos e acordos.
Então por que, na França, a reação foi diferente?
Porque o país já havia preparado o terreno para tratar esse tipo de prática com mais rigor.
O que existia de tão particular na legislação francesa?
Desde 2015, a França se tornou o primeiro país a transformar a chamada obsolescência programada em crime.
Isso significa que fabricantes que reduzam intencionalmente a vida útil de um produto podem enfrentar consequências penais e financeiras.
Quais consequências?
A lei prevê até dois anos de prisão, multa de 300 mil euros ou penalidades que podem chegar a 5% do faturamento anual.
Não se tratava, portanto, apenas de uma discussão sobre reputação ou transparência, mas de um enquadramento legal já definido.
E de onde veio essa mudança na lei?
Quem esteve à frente dessa pressão?
A ativista Laetitia Vasseur, que durante anos defendeu regras mais duras contra práticas consideradas prejudiciais ao consumidor e ao meio ambiente.
Esse trabalho ajudou a consolidar uma visão mais severa sobre produtos projetados para durar menos ou perder utilidade antes do necessário.
Quando essa postura se materializou no caso da Apple?
Em 2020, a empresa foi multada em cerca de 27 milhões de dólares na França.
A sanção não veio sozinha.
O que mais foi exigido?
A Apple também teve de publicar um comunicado oficial em seu site na França, reconhecendo o ocorrido por um período determinado.
A medida ampliou o alcance da punição, porque não se limitou ao valor financeiro: houve também uma obrigação pública de informação.
Mas a resposta francesa parou nessa multa?
Não.
O país avançou em outras frentes para enfrentar o problema de forma mais ampla.
Qual foi uma das principais iniciativas?
A criação do Índice de Reparabilidade.
O que esse índice faz?
Ele obriga fabricantes a informar, em uma escala de 1 a 10, o quão fácil é consertar smartphones, laptops e eletrodomésticos.
A lógica é simples: oferecer ao consumidor uma referência objetiva sobre a possibilidade de reparo antes da compra.
E por que isso importa tanto?
Se reparar custa menos, é mais simples e mais acessível, a substituição deixa de ser a única saída.
Foi justamente nessa direção que a França também criou o Fundo Nacional de Reparos.
Qual é a função dele?
Subsidiar consertos para torná-los mais baratos do que a troca do produto.
Em vez de empurrar o consumidor para uma nova compra, a política busca tornar o reparo uma alternativa economicamente viável.
Esse conjunto de medidas ficou restrito ao debate interno francês?
Não.
A iniciativa passou a ser vista como referência e inspirou discussões na União Europeia sobre leis semelhantes voltadas ao direito de reparo e à sustentabilidade.
O caso da Apple, portanto, não ficou isolado como uma controvérsia empresarial.
Ele se conectou a uma mudança regulatória mais ampla, em que desempenho, durabilidade, transparência e reparo passaram a ocupar o centro do debate público.
E qual foi, afinal, a sequência completa dos fatos?
A Apple foi multada em cerca de 27 milhões de dólares na França por reduzir deliberadamente o desempenho de iPhones mais antigos; investigações apontaram que atualizações do sistema diminuíam a velocidade de aparelhos com baterias desgastadas; enquanto outros países ficaram em questionamentos e acordos, a França adotou uma linha mais rígida porque, desde 2015, criminalizou a obsolescência programada, prevendo até dois anos de prisão, multa de 300 mil euros ou penalidades de até 5% do faturamento anual; essa mudança foi impulsionada pela ONG HOP, fundada por Laetitia Vasseur; em 2020, além da multa, a empresa teve de publicar um comunicado oficial em seu site na França; depois disso, o país criou o Índice de Reparabilidade e o Fundo Nacional de Reparos, medidas que ajudaram a inspirar discussões na União Europeia sobre direito de reparo e sustentabilidade.