Ele foi chamado para explicar um dos casos mais explosivos do sistema financeiro, mas decidiu não aparecer.
Por que a ausência de Roberto Campos Neto chama tanta atenção?
Porque o ex-presidente do Banco Central foi convocado pelos senadores para falar na CPI do Crime Organizado sobre o caso do Banco Master e, ainda assim, comunicou que não participará da audiência pública marcada para esta quarta-feira, 8 de abril de 2026.
Foi a segunda vez que ele não compareceu.
Mas essa ausência já não tinha acontecido antes?
Sim.
Em março, Campos Neto também havia sido convocado.
Naquela ocasião, porém, acabou desobrigado de comparecer após decisão do ministro André Mendonça.
Agora, a nova falta recoloca no centro da discussão a atuação da autoridade monetária durante o período em que o Master expandiu fortemente suas operações.
E por que os congressistas queriam ouvi-lo?
Porque Campos Neto falaria como testemunha para explicar a atuação do Banco Central no caso.
O interesse do Senado está ligado ao avanço das investigações sobre o banco, descrito como o maior escândalo bancário da história, com possibilidade de desdobramentos por meio de um acordo de delação premiada com reflexos nos Três Poderes.
Quem mais está no foco desse caso?
Em 19 de março de 2026, ele firmou um acordo de confidencialidade com a Polícia Federal e com a PGR, abrindo caminho para uma possível delação premiada.
O documento, segundo as informações disponíveis, expõe riscos para várias autoridades públicas de Brasília.
Se Campos Neto não vai, quem deve falar?
O atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmou presença.
Ele assumiu o cargo em janeiro de 2025 e deve comentar as investigações que resultaram em um rombo de quase R$ 52 bilhões no FGC, o Fundo Garantidor de Créditos.
Como esse rombo ganhou essa dimensão?
Mais tarde, durante a negociação de compra do Master pelo BRB, em 2025, o Banco Central descobriu os chamados créditos podres da instituição.
O BRB comprou R$ 12,2 bilhões em carteiras do Master e passou a enfrentar situação financeira alarmante.
E o BRB, onde entra nessa história?
A instituição, estatal do Distrito Federal, apresentou em fevereiro deste ano um plano de capital para recompor o balanço e reforçar a liquidez.
Mesmo assim, corre risco de ser liquidada pelo Banco Central, assim como ocorreu com o Master.
O banco também não divulgou o balanço financeiro do ano passado, o que aumentou as incertezas sobre seu futuro.
Quando o Banco Central concluiu que havia um problema grave?
A autoridade monetária afirmou ter tido “certeza” da inexistência de lastro em carteira de crédito em 27 de junho de 2025.
Em julho, o caso foi comunicado ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal.
A primeira fase da operação Compliance Zero foi realizada em novembro.
Havia suspeitas dentro do próprio Banco Central?
Sim.
Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana são suspeitos de facilitar interesses do Master na autoridade monetária.
Os dois atuavam no Desup, o Departamento de Supervisão Bancária, e foram afastados em 4 de março deste ano.
A CGU também instaurou processos administrativos disciplinares.
Paulo Sérgio Souza, que foi diretor de Fiscalização do Banco Central de 2017 a 2023, é alvo de investigações da PF por fornecer informações privilegiadas a Daniel Vorcaro.
Como o Banco Central descreveu sua atuação?
Galípolo já afirmou que o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, identificou em janeiro de 2025 que o Master estava vendendo novas carteiras por causa de problemas de liquidez, mesmo com dificuldades de novas captações.
Um grupo de análise começou os trabalhos em fevereiro e, em março, identificou que as carteiras não tinham lastro.
Segundo Galípolo, os documentos obtidos naquele momento eram insuficientes para constatar fraude, o que levou o BC a buscar respostas mais satisfatórias sobre a origem dos créditos.
E o desfecho institucional do banco?
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
O caso deixou um rombo recorde de quase R$ 52 bilhões no FGC, mesmo com o banco representando apenas 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional.
Também provocou prejuízo de quase R$ 2 bilhões para Estados e municípios nos fundos de Previdência.
Quem conduz a apuração no Senado?
O relator da CPI é o senador Alessandro Vieira, do MDB de Sergipe.
Já Gabriel Galípolo, que confirmou presença, também carrega outro ponto sensível: ele teve uma reunião fora da agenda pública no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro de 2024, com Daniel Vorcaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras autoridades.
Na época, não informou sobre o encontro a Roberto Campos Neto.
No fim, o que está posto agora?
Roberto Campos Neto não irá à CPI do Crime Organizado sobre o caso Banco Master pela segunda vez, enquanto Gabriel Galípolo confirmou presença para falar sobre as investigações, o rombo de quase R$ 52 bilhões no FGC, a descoberta de carteiras sem lastro, a liquidação do banco em novembro de 2025 e os desdobramentos que envolvem Daniel Vorcaro, o BRB, a Polícia Federal, a PGR e suspeitas dentro do próprio Banco Central.