Eles estavam falando de casamento poucas horas antes de tudo acabar com um tiro.
Como uma noite de planos virou um caso investigado por homicídio?
O companheiro contou que os dois tinham saído para conversar, comemorar três anos de relacionamento e pensar no futuro.
Mas que futuro era esse?
Era um futuro concreto, ainda que modesto.
Os dois planejavam oficializar a união assim que saísse a segunda via da certidão de nascimento dela.
Também juntavam dinheiro para uma pequena lua de mel na Praia Grande, algo simples, um bate e volta, como ele mesmo descreveu.
Por que esse detalhe importa tanto?
Porque mostra que não se tratava de um plano distante, mas de uma vida que já estava sendo organizada passo a passo.
E quem era essa mulher no centro da história?
Antes de tudo, alguém que, segundo o companheiro, tinha construído com ele uma rotina de esforço, esperança e parceria.
Eles estavam juntos havia três anos, tinham tatuado o nome um do outro nos braços e, nas palavras dele, transformavam dificuldades em esperança.
Mas há um ponto que muda o peso de tudo: ela também deixava cinco filhos.
Então o que aconteceu naquela madrugada?
O caso ocorreu em Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo.
De acordo com imagens e relatos reunidos na investigação, o casal caminhava de mãos dadas quando uma viatura passou.
A partir daí, começou uma discussão.
Mas por que essa discussão começou?
A versão do companheiro é uma.
A versão da policial é outra.
Ele afirma que a viatura passou em alta velocidade e quase atingiu o casal com o retrovisor, o que provocou a reação dela.
Já a policial diz que o homem esbarrou o braço no veículo e que o casal passou a gritar.
E é justamente aqui que a maioria se surpreende: o que se sabe com mais clareza não vem só dos depoimentos, mas também de um registro de câmera de segurança com áudio.
O que esse áudio mostra?
Mostra o casal fora do alcance da imagem, mas com parte da discussão audível.
Em um dos trechos, ela diz: “com todo respeito, mas você que bateu em nós, que eu vi”.
Depois, a tensão aumenta.
Em seguida, ouve-se Luciano gritando “Vai agredir?
Vai agredir?
”.
Segundos depois, vem o disparo.
Mas o que aconteceu depois muda tudo.
Ela foi atingida no tórax e caiu no chão.
Segundo as informações do caso, agonizou por cerca de 30 minutos até ser socorrida, mesmo com o Hospital Municipal Cidade Tiradentes a menos de quatro quilômetros do local.
O companheiro aponta negligência nesse intervalo.
E há um detalhe que quase ninguém ignora quando olha para esse caso: a policial que atirou não usava câmera corporal.
Por que ela estava sem bodycam?
Porque ainda estava em período de estágio supervisionado na corporação e não havia cumprido os requisitos burocráticos para portar o equipamento.
A soldado, de 21 anos, havia tomado posse havia pouco mais de um ano.
Isso encerra a discussão?
Não.
Na verdade, abre outra ainda mais delicada.
Qual foi a justificativa da policial para o tiro?
Em depoimento, ela afirmou ter sido agredida com um tapa no rosto.
Também disse que o casal apresentava sinais de embriaguez e que o homem gesticulava de forma agressiva.
Já o companheiro nega essa dinâmica e afirma que não houve abordagem regular, dizendo que a policial desceu da viatura atirando.
Quem está sendo investigado?
Mais de uma pessoa.
A soldado foi afastada da corporação, teve a arma recolhida e é alvo de inquérito policial militar e de investigação da Polícia Civil.
Ao mesmo tempo, o companheiro da vítima também passou a ser investigado por resistência, com base na versão dos policiais.
Isso torna o caso mais simples?
Torna tudo mais sensível, porque as versões colidem justamente no ponto central: o que levou ao disparo.
E onde entra a frase que dá nome a essa história?
Entra no que talvez seja o trecho mais doloroso de todos.
“Íamos casar”, disse Luciano ao lembrar que a madrugada era para ser de comemoração, não de luto.
O plano era oficializar a união, seguir trabalhando, juntar o pouco que tinham e viver o que ainda não tinham vivido.
Só que o caso agora não fala apenas de uma morte.
Fala de uma promessa interrompida, de uma investigação em aberto e de perguntas que ainda não pararam de ecoar.