Bastou uma frase para transformar uma discussão política em um dos momentos mais tensos da Comissão da Mulher.
Mas o que, de fato, levou uma deputada a ameaçar acionar a Lei Maria da Penha contra Erika Hilton?
A resposta não começou naquele instante mais explosivo.
Antes disso, a comissão já vinha sendo tomada por um embate entre parlamentares da oposição e a presidente do colegiado, em uma sessão marcada por críticas, interrupções e acusações cruzadas.
E por que a tensão subiu tanto?
Porque um grupo de deputadas tentou aprovar uma moção de repúdio contra a eleição de Erika Hilton para a presidência da comissão.
A partir daí, oposicionistas passaram a se revezar em discursos contra publicações feitas por ela nas redes sociais.
Segundo essas deputadas, mulheres teriam se sentido ofendidas com postagens da parlamentar do PSOL.
Mas que postagens eram essas?
As críticas se concentraram em textos nos quais Erika Hilton se referia às pessoas que a atacavam nas redes como “imbeCIS”.
A grafia com parte da palavra em letras maiúsculas foi interpretada por adversárias como uma referência às mulheres cisgênero, ou seja, aquelas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo biológico atribuído no nascimento.
Só que a discussão não parou nessa interpretação.
O clima esquentou durante os discursos, e foi nesse cenário que surgiu a fala que mais chamou atenção.
A deputada Socorro Neri afirmou que, se Erika Hilton fosse para cima dela, procuraria a Lei Maria da Penha, dizendo que a parlamentar “tem a força de um homem”.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe de imediato: essa declaração não veio isolada.
Ela apareceu no meio de uma sequência de acusações mais ampla.
Socorro Neri também disse que a fala de Erika Hilton estaria incitando militantes de esquerda que acompanhavam a reunião e afirmou que, “enquanto mulher”, a presidente da comissão não a representava.
E como Erika Hilton reagiu a isso?
Depois de ouvir uma série de críticas, ela deixou a cadeira da presidência e foi para a bancada dos integrantes da comissão para responder diretamente às declarações.
Esse movimento mudou o tom da sessão, porque a discussão deixou de ser apenas sobre postagens e passou a envolver presença, atuação e legitimidade dentro do colegiado.
O que ela disse nesse momento?
Erika afirmou que, desde que tomou posse, participa das reuniões da comissão.
Também declarou que muitas das deputadas que agora a criticavam não costumavam aparecer ali para discutir projetos.
E é aqui que muita gente se surpreende: ao rebater a polêmica sobre as redes sociais, ela negou que suas mensagens fossem dirigidas às mulheres ou às deputadas presentes.
Então a quem ela dizia se referir?
Segundo Erika Hilton, as postagens eram direcionadas às pessoas que a ameaçam de morte nas redes, que dizem que vão arrancar sua cabeça e que ela não mereceria estar no Parlamento.
Ao explicar isso, ela classificou esse grupo como “esgoto da sociedade”.
Mas o que acontece depois muda o rumo da sessão.
A confusão deixou de ser apenas verbal entre parlamentares e passou a envolver também pessoas que acompanhavam a reunião.
Um visitante ofendeu verbalmente a deputada Clarissa Tércio, e o episódio provocou uma nova escalada de tensão dentro do plenário.
Quem reagiu primeiro?
A situação ficou ainda mais delicada porque, em um primeiro momento, a deputada Fernanda Melchionna argumentou que não tinha competência para impedir o acesso de um cidadão às dependências da Câmara.
Mas isso ficou assim?
Diante do aumento da confusão, ela acionou o Departamento de Polícia Legislativa, e o visitante acabou retirado pelos agentes.
A partir daí, a sessão já não tinha mais condições de seguir normalmente.
E como tudo terminou?
A deputada Chris Tonietto encerrou a sessão para que os parlamentares presentes acompanhassem Clarissa Tércio no registro do boletim de ocorrência.
Outros deputados também manifestaram solidariedade à parlamentar pernambucana.
Só que o ponto mais sensível permaneceu no ar.
A ameaça de recorrer à Lei Maria da Penha, feita em meio ao confronto com Erika Hilton, não ficou solta dentro de uma discussão qualquer.
Ela surgiu no centro de uma sessão que começou com críticas a postagens, avançou para ataques pessoais, passou por acusações de incitação e terminou em tumulto, retirada de visitante e registro policial.
E é justamente aí que a história não se fecha por completo.
Porque, no fim, a sessão foi encerrada, mas as falas ditas ali — especialmente as que envolveram Erika Hilton, Socorro Neri e a menção à Lei Maria da Penha — continuaram ecoando muito além da comissão.