Bastaram poucas frases para expor um problema que já não cabe mais no silêncio institucional.
Aos 70 anos, Gilmar Mendes é o ministro mais antigo do Supremo Tribunal Federal.
Pela posição que ocupa, seria natural esperar dele o peso da moderação, da sobriedade e do equilíbrio.
Mas o histórico reunido ao longo dos anos aponta em outra direção.
Em vez de esfriar crises, o decano do STF frequentemente escolhe palavras que ampliam conflitos, personalizam disputas e empurram a Corte ainda mais para o centro do embate político.
O padrão chama atenção justamente porque não se trata de um episódio isolado.
A pergunta que surge é simples: quando um ministro do Supremo fala, ele fala apenas por si ou carrega junto a autoridade da instituição?
No caso de Gilmar, a resposta parece aparecer nas próprias reações que suas declarações provocam.
E elas quase sempre vêm acompanhadas de constrangimento, contestação e novo desgaste.
Um dos momentos mais emblemáticos ocorreu em março de 2018, em Lisboa.
Ao ser questionado por um repórter sobre quem havia pago sua viagem a Portugal, Gilmar reagiu com agressividade e mandou que o jornalista devolvesse a pergunta ao editor.
Depois negou que o STF tivesse custeado a passagem, mas não esclareceu de imediato a origem dos recursos.
O que poderia ser resolvido com transparência virou confronto.
Esse estilo se repetiu com força durante os embates sobre a Lava Jato.
Em 2019, no plenário do Supremo, ao discutir a competência da Justiça Eleitoral em casos ligados a caixa dois, Gilmar acusou investigadores de Curitiba de pressionar a Corte com “método de gângster”.
Na mesma sessão, elevou ainda mais o tom ao chamar integrantes do Ministério Público de “gentalha despreparada” e “cretinos sem pensamento estratégico”.
A crítica institucional deu lugar ao ataque pessoal.
Mas por que isso importa tanto?
Trata-se de um ministro do STF, tribunal que deveria funcionar como referência de contenção verbal e segurança jurídica.
Quando a linguagem desce ao insulto, a autoridade do cargo sobe junto no estrago.
Em 2023, no programa Roda Viva, Gilmar ampliou o alvo.
Disse que “Curitiba gerou Bolsonaro” e que a cidade teria “o germe do fascismo”.
Depois afirmou que se referia à chamada “República de Curitiba”, e não à cidade em si.
Ainda assim, a frase já havia produzido o efeito esperado: indignação pública e novo foco sobre o comportamento do ministro, não sobre o mérito da crítica.
A virada mais reveladora talvez esteja no fato de que os alvos mudam, mas o método permanece.
Antes, procuradores, juízes e personagens da Lava Jato.
Agora, também adversários políticos e críticos do Supremo.
Em abril de 2024, ao relatar encontro com Sergio Moro, Gilmar afirmou ter dito ao ex-juiz que ele e Deltan Dallagnol “roubavam galinhas juntos”.
Em dezembro do mesmo ano, voltou a atacar os investigadores da operação, chamando-os de “microcéfalos” e de gente com “cérebro de minhoca”.
E ainda contou, com orgulho, que é visto como “profeta” por ter reagido antes dos demais ao que considera abusos da força-tarefa.
A pergunta inevitável é outra: há limite?
Pouco depois, na comemoração dos 135 anos do STF, ironizou Sergio Moro ao sugerir que o senador talvez não soubesse escrever corretamente a palavra “tigela”.
O ambiente solene da Corte virou palco para provocações.
Nos últimos dias, o foco passou a ser Romeu Zema.
Após o governador publicar um vídeo satírico com bonecos representando figuras do STF, Gilmar reagiu em tom de deboche.
Disse que Zema falava um “dialeto próximo do português” e ironizou o sotaque mineiro, comparando-o a uma língua do Timor Leste.
No dia seguinte, foi além ao usar um exemplo que soou como insinuação sobre a sexualidade do governador.
Depois pediu desculpas.
Mas o dano já estava feito.
E houve ainda outro episódio recente, talvez um dos mais duros.
Ao comentar relatório da CPI do Crime Organizado que sugeria seu indiciamento, Gilmar associou o documento a um “quê de lavajatismo” e atacou Rodrigo Janot com uma frase sobre suposta embriaguez no meio da tarde.
Em seguida, justificou o excesso como “compromisso com a história”.
É justamente aí que está o ponto central.
Gilmar Mendes não apenas fala de forma agressiva.
Ele frequentemente apresenta seus excessos como virtude, como se a falta de freio fosse prova de lucidez superior.
Num Supremo já pressionado por críticas, esse comportamento aprofunda a percepção de distanciamento, arrogância e privilégio.
E quando isso parte do ministro mais antigo da Corte, o problema deixa de ser apenas pessoal.
Passa a atingir a imagem da própria instituição.
No fim, a questão não é se um ministro pode ter opinião.
É se pode usar o peso do cargo para incendiar o debate, humilhar adversários e depois tratar tudo como gesto de grandeza.
Pelos episódios acumulados, Gilmar parece já ter dado sua resposta.
O país é que ainda segue lidando com as consequências.