Ela viajou mais do que o próprio presidente.
O dado chama atenção por si só, mas o que ele revela vai além da curiosidade sobre deslocamentos oficiais.
Em um ano de divulgação pública da agenda da primeira-dama Janja, o Palácio do Planalto registrou compromissos em 12 países e em 32 cidades brasileiras.
A exposição dessas agendas começou há 12 meses, após orientação da Advocacia-Geral da União sobre a atuação da mulher do presidente Lula.
A pergunta que surge é simples: qual foi o tamanho dessa presença?
Os números ajudam a responder.
Nesse período, Janja teve compromissos no exterior na Colômbia, China, Coreia do Sul, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Indonésia, Malásia, Rússia, Uruguai e Vaticano.
Em alguns casos, os destinos se repetiram, como Estados Unidos, França e Vaticano.
No Brasil, ela deixou Brasília para agendas em 32 municípios distribuídos por 13 Estados.
Mas o ponto que mais chama atenção aparece quando se observa apenas 2026. Janja passou mais tempo fora do país do que Lula.
Segundo levantamento do Poder360, foram 20 dias no exterior, em quatro viagens para seis destinos.
No mesmo período, o presidente ficou 16 dias fora do Brasil.
A diferença é pequena no calendário, mas grande no simbolismo político, porque expõe o peso crescente da atuação internacional da primeira-dama dentro de um governo que já é marcado por forte presença pessoal e por agendas paralelas.
Isso aconteceu só neste ano?
Desde o início do mandato, em 2023, Janja acumula 177 dias no exterior.
São 23 dias a mais do que Lula, que soma 154. Ao todo, a primeira-dama visitou 38 países em 37 viagens.
Já o presidente passou por 41 nações em 44 viagens presidenciais.
O que Janja fez nessas agendas?
Também realizou uma viagem solo de cinco dias aos Estados Unidos, em março, para um evento da Organização das Nações Unidas.
Mais recentemente, Lula e Janja encerraram uma viagem de seis dias por Espanha, Alemanha e Portugal.
É nesse trecho que aparece uma virada importante.
Enquanto Lula usou a agenda em Hannover para pedir que a Europa abandone a “resistência ideológica” contra os biocombustíveis brasileiros e, em Lisboa, ironizou Donald Trump ao dizer que o republicano deveria receber o Nobel da Paz para encerrar guerras, Janja cumpriu agenda própria em território espanhol antes de se encontrar com o presidente em Barcelona.
E qual foi o foco dessa agenda independente?
Em Valência, a primeira-dama participou de debate sobre “ecofeminismo” e depois criticou a atuação das big techs em um painel sobre acesso global à Justiça.
Também visitou o sistema espanhol de acompanhamento de casos de violência de gênero ao lado de ministros locais.
Por que isso importa?
Porque a divulgação oficial da agenda, iniciada por orientação da AGU, acabou oferecendo um retrato mais claro da dimensão política e institucional da atuação da primeira-dama.
O que antes poderia parecer presença acessória passou a aparecer como rotina estruturada, com compromissos próprios, deslocamentos frequentes e participação em temas ideológicos e internacionais sensíveis.
Ao mesmo tempo, os números de Lula ajudam a compor o contraste.
O presidente visitou oito países em 2026. Desde que assumiu, passou 154 dias fora do Brasil.
O ano de 2023 foi o de maior ausência, com 62 dias no exterior.
Em 2024, a frequência caiu por causa de uma cirurgia na cabeça.
Em 2025, voltou a subir, com 50 dias fora do país.
Na viagem mais recente, o governo fechou 15 atos de cooperação com a Espanha e outros dez acordos com a Alemanha.
Os compromissos envolveram temas como inteligência artificial, defesa e bioeconomia.
Ainda assim, o dado que mais se impõe no balanço não é apenas o volume de acordos nem o roteiro presidencial.
É outro.
Em um ano de agendas tornadas públicas, Janja não apenas ampliou sua presença institucional.
Ela circulou por 12 países e 32 cidades brasileiras.
E, em 2026, ficou mais tempo no exterior do que o próprio chefe de Estado.
Para um governo que costuma concentrar poder, imagem e discurso em torno de Lula e do PT, o número revela uma contradição difícil de ignorar: a primeira-dama deixou de ser apenas acompanhante de viagem e passou a ocupar, na prática, um espaço político cada vez mais visível.