Ela volta a falar sobre um dos crimes mais chocantes do país, mas não começa pela noite do assassinato.
Então por onde começa?
Pela infância, pela casa onde viveu com os pais, Manfred e Marísia von Richthofen, e pelo ambiente que descreve como sem afeto.
No documentário inédito, Suzane von Richthofen, hoje com 42 anos, revisita o caso pelo qual foi condenada a 39 anos de prisão, pena atualmente cumprida em regime aberto, e reconstrói a história sob a própria versão.
O que ela diz sobre essa convivência familiar?
Afirma que estudava o tempo todo, tirava notas altas e não havia demonstrações de amor entre pais e filhos.
“Meu pai era zero afeto.
Minha mãe ainda tinha um pouco”, relata.
Em outro momento, resume a sensação de forma direta: os pais teriam construído um abismo dentro de casa.
Esse distanciamento aparecia só na frieza cotidiana?
Segundo Suzane, não.
Ela afirma que o relacionamento dos pais era muito ruim e diz ter presenciado uma cena de violência quando era criança.
Conta que viu o pai enforcando a mãe contra a parede durante uma discussão.
Também relata ausência total de diálogo sobre temas íntimos e diz que, com o tempo, ela e o irmão, Andreas, foram ficando “invisíveis” dentro de casa.
E o irmão, onde entra nessa história?
Entra como refúgio.
Suzane afirma que os dois criaram um mundo próprio dentro da casa, uma espécie de espaço separado dos pais.
Essa ligação, segundo ela, funcionava como proteção em um ambiente que descreve como emocionalmente vazio.
Quando essa dinâmica muda de forma decisiva?
Quando Daniel Cravinhos passa a ocupar um lugar central em sua vida.
Suzane sugere que o espaço deixado pela família foi preenchido por ele.
O namoro avança, a resistência dos pais cresce e o conflito dentro de casa se intensifica.
A mãe, segundo ela, dizia que Daniel a puxaria “para o fundo do poço”.
Como esse relacionamento se desenvolveu?
Em segredo e com mentiras cada vez mais frequentes.
Suzane conta que saía de casa dizendo que ia para o karatê, mas seguia para a casa de Daniel.
Diz também que, escondida dos pais, conheceu o litoral de São Paulo, alugava carro com ele e vivia experiências que associava ao mundo que queria viver.
Quando as mentiras foram descobertas, afirma, a casa virou uma guerra.
Esse conflito chegou a agressão?
Segundo o relato dela, sim.
Suzane afirma que levou um tapa do pai tão forte que seu rosto virou para o lado.
A partir daí, a ruptura familiar teria se aprofundado ainda mais.
Qual foi o ponto de virada?
Ela aponta a viagem dos pais à Europa por 30 dias.
Nesse período, Daniel teria ido morar com ela na casa da família.
Suzane descreve esse mês como de “liberdade total” e diz que foi um sonho que não queria ver acabar.
Também afirma que aquele período mudou tudo.
Mas quando a ideia do crime aparece?
De forma gradual, segundo a própria narrativa.
Suzane diz que não falavam diretamente em matar os pais, mas repetiam que seria muito bom se eles não existissem.
Aos poucos, essa ideia teria ganhado forma até se tornar concreta.
Ela tenta se afastar da execução?
Sim, mas sem negar a responsabilidade.
Suzane afirma que não construiu a arma do crime e sustenta que não participou diretamente da execução.
Diz que, na noite do assassinato, ficou no andar de baixo, no sofá, com as mãos nos ouvidos para não escutar o que acontecia no pavimento superior.
Ainda assim, admite: sabia.
E reconhece que poderia ter impedido.
“A culpa é minha.
Claro que é minha”, afirma.
O que aconteceu naquela noite?
Manfred e Marísia von Richthofen foram assassinados a pauladas em 31 de outubro de 2002.
O homicídio foi planejado por Suzane e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos.
O documentário fica só no passado?
Ele também mostra a vida atual de Suzane.
Sem data oficial de lançamento e com título provisório de “Suzane vai falar”, o filme de quase duas horas teve pré-estreia restrita na Netflix.
Nele, ela aparece ao lado do marido, o médico Felipe Zecchini Muniz, que relata ter entrado em contato com ela pelo Instagram para encomendar sandálias customizadas para as três filhas.
As meninas aparecem em cenas domésticas, assim como o filho pequeno de Suzane.
E como ela encerra esse retorno ao passado?
Tentando marcar uma separação entre quem foi e quem diz ser hoje.
Afirma que a mulher que participou do assassinato dos pais ficou no passado.
Diz que essa Suzane “morreu junto” com Manfred e Marísia, fala em fé, em redenção e declara que, ao olhar para o filho, sente a certeza de que Deus a perdoou.
Ainda assim, admite que não escapa da própria história: continua sendo reconhecida, observada e fotografada em situações comuns do dia a dia.