Bastou um empate técnico ganhar forma nas pesquisas para o tom do Planalto mudar de vez.
O que provocou essa virada?
O avanço de Flávio Bolsonaro em cenários de segundo turno contra Lula, apontado por levantamentos recentes, acendeu um alerta no governo e no PT, que deixaram a cautela de lado e passaram a adotar uma postura mais agressiva na disputa eleitoral.
Mas que números mexeram tanto com a estratégia?
E isso ficou restrito ao cenário nacional?
Não.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, levantamento da Atlas/Estadão, publicado em 1º de abril, mostra o senador com 49%, contra 44% do petista, também em um cenário de segundo turno.
Diante disso, o que Lula decidiu fazer?
O presidente passou a elevar o tom contra o adversário e estimulou ministros e dirigentes do partido a adotarem uma atuação mais proativa.
Como isso apareceu na prática?
Em reunião ministerial recente, Lula reforçou a necessidade de intensificar a comunicação das ações do governo e cobrou mais engajamento dos auxiliares.
A orientação foi direta: ministros deveriam “vão para cima” na defesa da gestão, destacando realizações e buscando ocupar espaço no debate público de forma mais assertiva.
Mas por que a comunicação virou um ponto tão sensível?
Porque, entre assessores do Palácio do Planalto, cresceu o descontentamento com os efeitos políticos dos programas sociais junto ao eleitorado.
A expectativa era outra?
Sim.
Governistas apostavam que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, além da ampliação do Gás para o Povo e do Pé-de-Meia, ajudariam a conter a queda de popularidade de Lula.
Isso aconteceu como esperado?
Não.
A consolidação de Flávio Bolsonaro e o ambiente de polarização ainda na pré-campanha reforçaram a percepção de que essas medidas, sozinhas, não estavam produzindo o efeito político imaginado.
Então qual passou a ser a aposta principal?
O chamado “pacote de bondades”.
O que isso significa dentro da estratégia petista?
Significa dar mais visibilidade a programas já existentes e associá-los diretamente à gestão do PT, além de ampliar a presença de ministros e lideranças partidárias na defesa dessas iniciativas.
E o partido também se reorganizou internamente?
Sim.
Durante almoço com a executiva e a bancada do PT na Câmara, o presidente do partido, Edinho Silva, afirmou que o PL, legenda de Flávio Bolsonaro, já havia montado um corpo jurídico robusto e uma assessoria de comunicação.
O que ele pediu aos deputados?
Que reproduzissem mais o discurso de Lula e buscassem maior alinhamento com a comunicação do governo.
Esse movimento surgiu do nada?
Não.
Antes disso, o próprio Edinho já havia reconhecido as dificuldades do partido no diálogo com a sociedade brasileira.
Esse ajuste ocorreu em clima de unidade?
Não exatamente.
O ambiente dentro do governo também foi marcado por tensão.
O que aconteceu?
Em reunião ministerial, o chefe da Casa Civil, Rui Costa, fez críticas públicas à comunicação do Planalto e cobrou mais efetividade na divulgação das ações do governo.
A fala teve impacto?
Sim.
O episódio foi interpretado por aliados como sinal de desgaste interno.
Durante o encontro, Rui questionou se a população conhece as realizações do governo e citou nominalmente o ministro da Secom, Sidônio Palmeira.
Como Sidônio reagiu?
Segundo relatos, demonstrou incômodo e tentou rebater as críticas, atribuindo parte das dificuldades a decisões herdadas da fase inicial do governo.
Houve alguma resposta prática?
Sim.
Na mesma reunião, ele anunciou que o governo passaria a veicular comerciais por estados, mostrando obras e entregas de Lula em diferentes regiões do país.
Isso foi visto como suficiente?
Não.
O alcance da medida direcionada foi considerado limitado, e por isso Sidônio pediu aos colegas uma divulgação mais orgânica das ações do governo.
E Rui Costa manteve o tom depois da repercussão?
Não.
Após o episódio ganhar destaque, ele minimizou o embate e negou ter criticado o colega.
Em entrevista à GloboNews, afirmou que queria, ao contrário, parabenizar Sidônio pelo “excepcional trabalho” e disse que ele deu uma “virada positiva” na comunicação do governo.
Mas os programas sociais ainda têm peso eleitoral?
Segundo Lucas Fernandes, cientista político e coordenador de Análise Política da BMJ Consultores Associados, sim, mas não com a mesma força determinante de eleições anteriores.
Por quê?
Ele lembra que políticas públicas seguem relevantes e cita o Bolsa Família como programa consolidado e ainda definidor de voto.
Onde está o desafio, então?
Na capacidade de responder às demandas de um eleitorado mais diverso, com expectativas mais amplas.
Isso significa que o problema é só de comunicação?
Não.
Para Fernandes, há também uma questão de direcionamento.
Algumas medidas alcançam segmentos específicos, como trabalhadores formais, enquanto parte significativa da população está na informalidade e não se beneficia diretamente.
E existe hoje uma medida capaz de mudar tudo sozinha?
Na avaliação dele, dificilmente.
Em um quadro de maior complexidade social e fragmentação do eleitorado, uma única ação tende a ter efeito limitado no conjunto da disputa.
Ele também ressalta que a economia continua importante, mas já não decide o voto de forma isolada, porque o eleitor também busca candidatos que representem sua visão de mundo e seus valores.
E quais foram exatamente os dados que dispararam essa mudança de rota?
O Paraná Pesquisas ouviu 2.
080 eleitores entre 25 e 28 de março de 2026, com 95% de confiança, margem de erro de 2,2 pontos percentuais e registro no TSE nº BR-00873/2026.
Já a pesquisa Atlas/Estadão foi realizada entre 24 e 27 de março, com 2.
254 eleitores de São Paulo, por recrutamento digital aleatório, margem de erro de 2 pontos percentuais, 95% de confiança e registro no TSE sob o protocolo BR-01079/2026.