Uma carona de avião acabou puxando um fio que leva a centenas de milhões de reais.
Mas por que um voo chamou tanta atenção?
E quando esses nomes passam a dividir o mesmo enredo, a pergunta deixa de ser apenas sobre a viagem.
Então o que surgiu de concreto?
Isso, por si só, já chama atenção.
Só que o ponto mais sensível não está apenas no valor.
Está no contexto em que essas operações passaram a ser observadas.
Que contexto é esse?
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, analisou entradas e saídas da empresa entre julho de 2024 e março de 2025. Nesse intervalo, os repasses feitos pelo banco de Daniel Vorcaro, que foi liquidado em novembro, apareceram entre os mais relevantes dentro dos R$ 38 bilhões que ingressaram na empresa no período.
E é aqui que muita gente começa a se surpreender: o alerta não fala só de volume.
O que mais aparece nesse documento?
Segundo a análise da movimentação global, há menções a “movimentação em benefício de terceiros sem causa aparente”, “transações expressivas em espécie com indícios de fracionamento” e “recebimento de créditos com o imediato débito sem aparente justificativa”.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe: os apontamentos são gerais e por amostragem, sem indicação de operações específicas.
Se não há operação específica apontada, por que o caso ganhou força?
Porque o nome de Molina aparece no documento como um dos donos da Marfrig, gigante do agronegócio criada por ele em 2000. E porque a relação comercial com o Master passou a ser observada justamente depois que outro fato trouxe visibilidade extra ao empresário: a carona dada ao ministro Gilmar Mendes em um avião da Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio.
E quando essa ligação veio à tona?
A informação sobre a viagem foi revelada pelo jornal O Estado de S.
Paulo.
A partir daí, a conexão entre os nomes deixou de parecer episódica.
O empresário que convidou o ministro para o voo é o mesmo ligado à empresa que recebeu os repasses do banco cujo sócio também estava ligado à aeronave.
O que acontece depois muda o peso da história: os números entram em cena.
Que números são esses?
De acordo com os documentos citados, entre julho e agosto de 2024, o Banco Master repassou R$ 101,6 milhões à empresa.
De agosto de 2024 a fevereiro de 2025, foram mais R$ 282,5 milhões.
Entre fevereiro e março de 2025, outros R$ 16,7 milhões.
Somados, os valores chegam aos R$ 400,9 milhões que colocaram a operação sob atenção.
Mas como a empresa respondeu?
Por meio da assessoria, a MBRF afirmou que realiza milhares de operações de câmbio com dezenas de instituições financeiras e que o Master foi apenas uma delas.
Disse também que não mantinha conta corrente no banco nem realizou investimentos por meio da instituição.
Além disso, rejeitou qualquer interpretação diferente sobre as operações de recebimento de exportações.
Isso encerra a questão?
Não exatamente.
Porque a resposta da empresa explica sua versão sobre a natureza das operações, mas não elimina o interesse gerado pelo alerta financeiro nem a curiosidade sobre a dimensão dos repasses.
E há outro ponto que reacende a atenção no meio dessa história: a empresa citada já tinha um peso histórico relevante na economia brasileira.
Qual?
A Marfrig é apontada como uma das chamadas “Campeãs Nacionais”, grupo de empresas associado a uma política implementada nos dois primeiros mandatos de Lula, com apoio estatal principalmente por meio do BNDES.
Entre 2007 e 2009, o banco injetou quase R$ 1 bilhão em capital na empresa.
Mais tarde, em maio de 2025, a Marfrig se fundiu com a BRF, formando a MBRF, da qual Molina se tornou presidente do Conselho de Administração.
E o ministro, o que disse sobre tudo isso?
Gilmar Mendes permaneceu em silêncio.
Esse silêncio, somado ao alerta, aos repasses e à viagem, é o que mantém a história aberta.
No fim, o ponto principal não é apenas que uma empresa ligada a quem deu carona ao ministro recebeu R$ 400,9 milhões do Master.
É que essa sequência reuniu, no mesmo quadro, dinheiro, influência, transporte privado e monitoramento financeiro.
E quando todos esses elementos aparecem juntos, a última pergunta nunca é a última.