Um número pode parecer sólido de longe, mas desmanchar quando alguém resolve olhar de perto.
Foi exatamente essa a provocação feita ao se chamar de “superávit de mentirinha” um resultado fiscal que, no papel, soa positivo, mas que, segundo a crítica, pode esconder algo bem menos confortável.
Mas por que um superávit, que em tese indicaria contas no azul, virou alvo de ironia?
Porque a discussão não está apenas no valor anunciado, e sim no caminho usado para chegar até ele.
Quando uma projeção depende de margens de tolerância, exclusões e hipóteses otimistas, a pergunta deixa de ser quanto foi prometido e passa a ser quanto disso realmente para em pé.
E qual é o número que está no centro dessa disputa?
A equipe econômica projetou um superávit primário de R$ 73,6 bilhões para 2027, equivalente a 0,5% do PIB.
À primeira vista, parece um sinal de equilíbrio.
Só que há um ponto que quase ninguém percebe de imediato: o próprio modelo permite uma variação tão ampla que esse resultado positivo pode, na prática, escorregar até um déficit de R$ 29,1 bilhões.
Como isso seria possível se a meta já foi apresentada?
Porque a crítica feita é justamente essa: a meta existe, mas vem cercada de mecanismos que reduzem sua rigidez.
Entre eles, estão as margens de tolerância e a exclusão de determinadas despesas da conta fiscal, como parte dos precatórios.
E é aqui que muita gente se surpreende: essas exceções foram estimadas em R$ 65,7 bilhões.
Então o problema não seria apenas o número final, mas o que ficou fora dele?
Exatamente.
O editorial sustenta que, ao retirar certas despesas da meta e operar com flexibilidade dentro do arcabouço fiscal, o governo produz um cenário considerado irrealista.
Em vez de transmitir segurança, isso levantaria dúvidas sobre a credibilidade da projeção.
Mas essa desconfiança se limita ao resultado primário?
Não.
O que acontece depois muda toda a leitura do quadro.
O texto também aponta divergências importantes entre as estimativas oficiais e outras projeções econômicas.
O governo prevê crescimento de 2,56% do PIB em 2027. Já o boletim Focus, do Banco Central, trabalha com 1,8%.
Parece uma diferença pequena?
Nem tanto.
Quando o crescimento esperado cai, a arrecadação pode frustrar expectativas, e a meta fiscal fica ainda mais pressionada.
E a dívida, entra nessa conta?
Entra, e com peso.
A gestão projeta dívida pública em 86% do PIB, enquanto o FMI estima que ela pode chegar a 100%.
Esse contraste amplia a sensação de que o cenário oficial pode estar mais apoiado em esperança do que em prudência.
Ainda mais porque, segundo o editorial, a trajetória da dívida segue em alta, depois de estar em 71,7% do PIB em 2022.
Mas por que isso importa tanto para quem está fora de Brasília?
Porque metas fiscais pouco realistas não ficam presas aos relatórios.
Elas podem afetar juros, inflação, crédito e investimento.
Se o mercado passa a desconfiar da capacidade de o governo entregar o que promete, a pressão sobre a economia aumenta.
Nesse ambiente, a Selic tende a permanecer elevada, o crédito fica mais caro e investir se torna mais difícil.
Então a ironia do título não é apenas retórica?
Ela resume uma crítica mais profunda.
O jornal O Estado de S.
Paulo, em editorial publicado neste sábado, 18, afirma que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 um cenário fiscal “irrealista”.
A leitura é que o superávit anunciado pode não passar de uma aparência contábil, incapaz de resistir ao teste da execução real.
E qual é o alerta final?
O ponto principal, portanto, não está no número que foi exibido, mas na distância entre o que foi prometido e o que pode de fato acontecer.
E quando essa distância cresce, a dúvida que fica não é se o superávit existe no papel, mas quanto tempo ele sobrevive fora dele.