A gordura presente na alimentação pode estar ligada a uma mudança silenciosa e preocupante no comportamento do câncer de mama.
Mas de que mudança se trata?
Segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, dietas ricas em gordura podem tornar alguns tumores mais agressivos, especialmente no caso do câncer de mama triplo negativo, uma forma considerada mais difícil de tratar por não responder à maioria das terapias convencionais.
Isso significa que a gordura faz o tumor crescer mais rápido?
Não exatamente.
Os resultados indicam que a gordura não necessariamente acelera o crescimento do tumor.
Então qual foi o efeito observado?
Os cientistas identificaram alterações na estrutura dos tumores que podem favorecer a invasão de tecidos próximos, um comportamento associado à progressão da doença.
Como os pesquisadores chegaram a essa conclusão?
Para investigar a influência dos nutrientes, eles cultivaram tumores em um modelo tridimensional, desenvolvido para reproduzir de forma mais fiel o ambiente do corpo humano.
E por que isso importa?
Porque esse tipo de sistema permite observar com mais precisão como o tumor reage a diferentes condições metabólicas, algo que modelos mais simples nem sempre conseguem mostrar.
O que foi testado nesse ambiente?
Os pesquisadores adicionaram um plasma semelhante ao humano com diferentes combinações de nutrientes, simulando condições associadas a várias dietas.
E o que aconteceu quando os tumores foram expostos a altos níveis de ácidos graxos e colesterol?
Nessa situação, eles desenvolveram projeções alongadas que se estendiam para fora do núcleo do tumor.
Por que essas projeções chamaram atenção?
Porque essas estruturas estão associadas ao comportamento invasivo do câncer e podem facilitar sua disseminação pelo organismo.
Em vez de permanecerem compactas, como em condições de referência, as células passaram a apresentar uma forma que sugere maior capacidade de avançar sobre os tecidos ao redor.
Esse efeito apareceu com qualquer tipo de nutriente?
Não.
Outras condições também foram avaliadas, incluindo ambientes ricos em insulina, glicerol ou cetonas.
E o resultado foi o mesmo?
Não.
Nesses casos, os tumores não apresentaram a mesma alteração estrutural.
As células permaneceram mais compactas, em um padrão semelhante ao observado na condição de referência.
Houve alguma pista biológica para explicar essa diferença?
Sim.
Os cientistas observaram mudanças na atividade de um gene chamado MMP1.
O que esse gene faz?
Ele está associado à degradação do colágeno, componente importante dos tecidos ao redor do tumor.
E qual foi a relação encontrada?
O que isso pode indicar?
Isso já prova uma relação direta de causa e efeito?
Ainda não.
Os próprios cientistas ressaltam que essa relação ainda precisa ser confirmada em estudos futuros.
E a chamada dieta cetogênica entrou na análise?
Sim.
Os experimentos também testaram uma mistura de nutrientes projetada para simular esse padrão alimentar, caracterizado por alto consumo de gordura e baixa ingestão de carboidratos.
Houve melhora em relação aos tumores iniciais?
Não.
Nesse modelo, não foi observada melhora.
Então o que esse estudo acrescenta?
Ele sugere que entender a interação entre dieta e microambiente tumoral pode ajudar a identificar novos alvos para pesquisas sobre o comportamento do câncer e possíveis estratégias terapêuticas.
Os resultados foram publicados na revista científica APL Bioengineering em 3 de março.
E a informação que permanece no centro de tudo é esta: no modelo analisado, altos níveis de ácidos graxos e colesterol estiveram associados a mudanças estruturais ligadas a maior invasão tumoral no câncer de mama triplo negativo, sem evidência de aceleração direta do crescimento do tumor.