Chamá-lo de “picareta” por trás das portas de uma das instituições mais poderosas do país já seria grave por si só, mas o que realmente intriga é outra coisa: se esse alerta existia, como a operação avançou mesmo assim?
A resposta começa com um detalhe que muda o peso de toda a história.
O problema, segundo relatos de ex-servidores e documentos internos, não era apenas a fama que circulava nos bastidores.
Havia também dúvidas técnicas sobre a origem do dinheiro e sobre a capacidade financeira dos envolvidos na tentativa de assumir o controle de um banco em dificuldade.
E então surge a pergunta inevitável: isso não bastaria para barrar tudo de vez?
Num primeiro momento, bastou.
O pedido inicial foi rejeitado em fevereiro de 2019, ainda na gestão de Ilan Goldfajn no Banco Central.
Os votos internos apontaram falhas na comprovação da origem dos recursos e na capacidade financeira dos participantes.
Mas há um ponto que quase sempre passa despercebido: a reputação negativa, embora comentada, não foi formalizada como razão principal para a negativa.
E por que isso importa tanto?
Porque, sem um impedimento jurídico mais robusto, a análise subjetiva de reputação perdia força diante dos critérios técnicos objetivos.
Em outras palavras, o que se dizia nos corredores não necessariamente se convertia em base legal segura para impedir a operação.
E é justamente aqui que muita gente se surpreende: mesmo com a má fama conhecida, isso não significava automaticamente um veto definitivo.
Mas então o que aconteceu depois?
O empresário voltou com um novo pedido poucos meses depois, em maio de 2019. E o que mudou?
Segundo os documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação e publicados pelo Valor Econômico, houve ajustes para atender às exigências técnicas.
O grupo de controle foi reduzido, pendências fiscais no Imposto de Renda foram regularizadas e a comprovação dos recursos foi reapresentada.
Se os obstáculos formais foram contornados, restava ainda a dúvida mais sensível: o Banco Central ignorou os alertas?
Não exatamente da forma mais simples que parece.
Relatos de técnicos e ex-diretores indicam que a preocupação com a reputação voltou à mesa na segunda análise, já sob Roberto Campos Neto.
Só que prevaleceu o entendimento de que, cumpridos os requisitos formais, faltaria base legal sólida para negar a compra.
E aqui entra uma nova camada da história: por que havia tanta pressão para encontrar uma solução?
Porque o banco em questão estava afundado em dívidas, e sua liquidação poderia gerar prejuízo bilionário ao Fundo Garantidor de Créditos.
Primeiro se falava em R$ 1,8 bilhão.
Depois, o risco teria aumentado para R$ 3,2 bilhões.
Isso ajuda a entender por que a autarquia buscava uma saída de mercado antes de decretar liquidação.
Mas esse contexto financeiro explica tudo?
Ainda não.
Há outro elemento que torna o caso ainda mais delicado.
A investigação recente da Polícia Federal apontou que o então diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, teria sido cooptado para fornecer informações privilegiadas sobre processos internos ligados ao Master.
A defesa dele negou qualquer relação ilegal e afirmou que jamais favoreceu o banqueiro.
Mesmo assim, a simples presença dessa suspeita muda a leitura do caso.
E o que essa operação permitiu, na prática?
Ela abriu caminho para a aquisição do Banco Máxima, passo decisivo para a criação e expansão do Master.
A transformação formal veio em 2021, quando o controle foi totalmente aprovado e houve aporte de R$ 400 milhões.
A partir daí, o banco foi reestruturado e cresceu com estratégia agressiva de negócios e contatos com altas autoridades.
Só que o que parecia uma virada empresarial passou a ser acompanhado por novas investigações.
E é aqui que o enredo fica ainda mais pesado.
Depois da aprovação, a Justiça chegou a decretar a prisão preventiva de Daniel Vorcaro por suspeita de participação em um esquema de desvio de recursos de fundos de previdência em Roraima.
A medida não foi cumprida e acabou revogada.
Mais tarde, o Banco Master também passou a ser investigado em apurações envolvendo operações com o BRB e no âmbito da CPMI do INSS.
Como se isso não bastasse, Vorcaro foi preso preventivamente novamente no mês passado, sob suspeita de tentar atrapalhar investigações e liderar uma “milícia pessoal” para coagir testemunhas e desafetos.
Então qual é o ponto central de tudo isso?
Ex-servidores do Banco Central afirmam que a reputação de Vorcaro já era conhecida quando ele tentou assumir o controle do Banco Máxima, mas os documentos indicam que os critérios formais e a pressão para evitar um rombo maior acabaram pesando mais do que os alertas informais.
No fim, a operação foi aprovada, ajudou a erguer o Master e deixou uma pergunta que continua aberta: quando a fama de alguém é conhecida por todos, em que momento ela deixa de ser rumor e passa a ser risco institucional real?