Eles descobriram a morte por jornais, e é justamente aí que começa a pergunta que ninguém da família consegue calar: como alguém sob custódia do Estado morre, é sepultado, e ainda assim os parentes dizem não ter recebido uma comunicação formal?
A resposta, segundo a denúncia feita pela defesa e pelos familiares, é tão grave quanto desconcertante.
Eles afirmam que não foram avisados oficialmente por nenhuma autoridade sobre o óbito.
Souberam da notícia pela imprensa, dias depois de tudo já ter acontecido.
Mas se a morte ocorreu enquanto ele estava preso preventivamente, como esse silêncio teria sido possível?
É aí que surge o ponto que mais incomoda.
Quando uma pessoa está sob responsabilidade estatal, cada passo, cada transferência e cada ocorrência deveria deixar rastros claros.
Então por que, neste caso, a família diz que não teve acesso nem ao básico?
E o que exatamente estaria sendo negado?
De acordo com o advogado Vicente Salgueiro, os parentes não receberam comunicação formal da Polícia Federal.
Além disso, a defesa acusa o Instituto Médico Legal de Minas Gerais de não disponibilizar a conclusão oficial sobre a causa da morte.
Isso já seria suficiente para levantar dúvidas, mas há um detalhe que quase ninguém percebe: o problema não se resume ao aviso tardio.
Ele se estende ao acesso às provas que poderiam explicar o que de fato aconteceu.
Que provas são essas?
A família afirma que a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal estariam negando acesso às imagens de segurança da sede da PF em Belo Horizonte e a partes importantes do inquérito.
Sem esses elementos, dizem os advogados, não há como verificar a dinâmica dos fatos, nem avaliar se houve falha de vigilância, omissão ou qualquer outra irregularidade.
E é aqui que a maioria se surpreende: mesmo com uma versão extraoficial circulando, os dados técnicos que poderiam confirmá-la ou contestá-la continuam fora do alcance da família.
Mas qual é essa versão?
Segundo informações divulgadas extraoficialmente pela unidade prisional, teria havido uma tentativa de suicídio nas dependências da sede da Polícia Federal antes do encaminhamento ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, onde ele morreu em 6 de março de 2026. Se essa é a explicação apresentada, por que a defesa insiste tanto em falar em falta de transparência?
Porque, para os familiares, uma versão sem documentação acessível não encerra nada.
Pelo contrário: abre novas perguntas.
Se houve tentativa de suicídio, em que circunstâncias isso ocorreu?
Havia monitoramento?
Quem estava responsável pela custódia?
Que registros existem?
O que acontece depois muda tudo, porque a discussão deixa de ser apenas sobre a causa imediata da morte e passa a envolver a responsabilidade do Estado sobre alguém que estava preso.
Só então o caso ganha contornos mais amplos.
O homem no centro dessa disputa é Luiz Phillipi Mourão, de 43 anos, conhecido como “Sicário”.
Ele havia sido preso preventivamente durante as investigações do caso Master e foi acusado de integrar uma suposta “milícia privada” ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, que teria o objetivo de silenciar opositores.
Mas por que esse apelido pesa tanto agora?
Porque a família rejeita frontalmente essa imagem.
O termo “sicário” significa assassino de aluguel, e os parentes afirmam que rotulá-lo dessa forma, sem provas concretas de envolvimento em crimes de violência, ofende sua memória.
Eles destacam o amplo convívio social de Mourão e dizem que, mesmo com a morte, continuam buscando acesso às provas da operação “Compliance Zero” para tentar limpar seu nome.
E aqui aparece outra camada pouco comentada: no Brasil, não existe absolvição póstuma, porque o processo criminal é encerrado com a morte.
Então por que insistir?
Justamente porque, para a família, a disputa deixou de ser apenas jurídica e passou a ser moral.
Sem acesso aos autos, sem imagens, sem laudo conclusivo do IML e sem comunicação formal da morte, eles dizem que restou um vazio institucional difícil de aceitar.
O sepultamento ocorreu em 8 de março, com a presença de amigos próximos, mas nem isso encerrou as dúvidas.
No fim, a denúncia de silêncio do Estado não se apoia em uma única ausência, e sim em várias: falta de aviso, falta de laudo acessível, falta de imagens e falta de transparência sobre o que ocorreu enquanto Mourão estava sob custódia.
E esse é o ponto principal: mais do que contestar uma versão, a família afirma que ainda tenta descobrir se algum dia terá acesso àquilo que deveria ter sido apresentado desde o começo.