A crítica veio sem rodeios e diante de um dos públicos mais sensíveis ao tema.
Na Agrishow, em Ribeirão Preto, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trata o agronegócio como “lixo”.
A declaração foi feita ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, diante de produtores e lideranças do setor, num discurso que misturou ataque direto ao Planalto, defesa do agro e projeção eleitoral para os próximos anos.
Mas o que exatamente Flávio quis marcar com essa fala?
Primeiro, ao dizer que o agro “está no coração”, o senador rejeitou a narrativa que, segundo ele, tenta transformar produtores em vilões.
Em seguida, elevou o tom ao afirmar que o governo federal pressiona o setor e prejudica quem produz no país.
Para Flávio, o agronegócio ocupa papel central na economia brasileira e, por isso, não poderia ser tratado como alvo político ou ideológico.
A fala não ficou apenas no campo simbólico.
Flávio também criticou a forma como o governo tem lidado com o financiamento ao setor.
O senador atacou o volume de recursos do programa federal voltado à compra de máquinas e equipamentos agrícolas e disse que esse modelo não responde ao problema real enfrentado por muitos produtores.
Qual seria esse problema, segundo ele?
O endividamento elevado, agravado por perdas provocadas por seca e enchentes.
Foi nesse ponto que o discurso ganhou um elemento mais concreto.
Em vez de novos financiamentos para aquisição de máquinas, Flávio defendeu linhas de crédito voltadas ao fluxo de caixa.
A mensagem foi clara: para ele, o produtor precisa de fôlego para continuar operando, e não de mais compromissos financeiros num cenário já pressionado.
Ao chamar de “insanidade” a forma como o setor é tratado, o senador procurou reforçar a ideia de que o governo Lula estaria desconectado da realidade do campo.
E por que essa crítica tem peso político maior do que parece à primeira vista?
Ao falar para esse público, Flávio não apenas atacou Lula.
Ele também tentou consolidar uma ponte com uma base que vê com desconfiança o governo petista e suas prioridades.
Quando afirma que o governo tenta “asfixiar o agro”, o senador transforma a divergência sobre crédito e política setorial em confronto político mais amplo.
No meio do discurso, porém, surgiu um detalhe que mudou o foco e reativou a atenção do evento.
Flávio elogiou Tarcísio de Freitas e disse que o governador tem, sim, plena capacidade de ser presidente do Brasil.
Mais do que um elogio protocolar, a fala soou como sinalização de futuro.
“E, se Deus quiser, ainda vai ser um dia”, declarou.
Afinal, Flávio estava falando de si ou de Tarcísio?
Dos dois.
Embora seja pré-candidato à Presidência, o senador afirmou que não esperava assumir essa condição.
Disse que o nome natural seria o do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O cenário, no entanto, mudou com a inelegibilidade de Bolsonaro e com sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal.
Nesse contexto, Flávio se apresenta como opção, mas sem fechar a porta para o protagonismo futuro de Tarcísio.
Essa combinação revela uma estratégia.
Ao mesmo tempo em que se coloca na disputa, Flávio preserva a unidade do campo bolsonarista e reconhece a força de um aliado que segue bem posicionado.
Em vez de disputa aberta, o discurso foi de continuidade e alinhamento.
Isso ajuda a explicar por que a fala sobre Tarcísio teve tanto peso quanto o ataque a Lula.
Perto do fim, veio o ponto principal.
Mais do que uma crítica ao tratamento dado ao agronegócio, Flávio usou a Agrishow para desenhar um cenário político.
Disse que, em 2027, Lula “vai ficar irrelevante”.
A frase resume o objetivo central de sua participação no evento: transformar a insatisfação do agro com o governo em combustível para a próxima eleição presidencial.
E como ele encerrou essa mensagem?
Dirigindo-se diretamente ao público.
“Basta gostar de você”, afirmou.
A frase, curta, procurou passar a ideia de que a mudança política não dependeria de apoio pessoal a ele, mas da reação de cada cidadão diante do que considera errado.
No fim, o discurso teve três eixos bem definidos.
Um ataque frontal ao governo Lula por sua relação com o agronegócio, uma defesa do setor como motor da economia e uma sinalização sobre o futuro da direita, com Flávio no presente e Tarcísio no horizonte.
Foi menos uma fala isolada e mais um recado político completo, dado no lugar certo, para o público certo, no momento em que a sucessão presidencial já começa a ganhar forma.