Uma montanha de dinheiro em espécie dentro da casa de um auditor da Receita Federal acendeu o alerta máximo da Polícia Federal no Rio de Janeiro.
A descoberta aconteceu em Niterói, na manhã desta terça-feira, durante a Operação Mare Liberum.
O valor ainda nem foi contabilizado, o que por si só já dá a dimensão do que os investigadores encontraram.
Mas a apreensão não surgiu isolada.
Ela apareceu no centro de uma investigação muito maior, que mira um esquema de facilitação de contrabando e descaminho no Porto do Rio.
O que exatamente está sendo apurado?
Segundo a PF, com apoio do Gaeco do Ministério Público Federal e da Corregedoria da Receita Federal, havia um mecanismo para liberar cargas que deveriam passar por fiscalização rigorosa.
Em vez disso, mercadorias eram desembaraçadas mesmo quando apresentavam inconsistências graves entre o que era declarado e o que de fato entrava no país.
A pergunta inevitável é simples: como isso teria funcionado por tanto tempo?
A suspeita é de atuação coordenada para permitir a entrada irregular de mercadorias, com divergências entre os produtos importados e os declarados, além de possível supressão de tributos.
O alcance da operação ajuda a medir o tamanho do problema.
Ao todo, 25 servidores da Receita Federal, entre auditores fiscais e analistas tributários, foram alvo de buscas.
Todos foram afastados das funções por determinação judicial.
O auditor em cuja residência foi encontrada a grande quantidade de dinheiro é um dos investigados no caso.
Mas há um detalhe que muda o peso dessa história no meio do caminho.
Não se trata apenas de um episódio pontual ou de uma suspeita recente.
As investigações começaram em fevereiro de 2022, a partir de apurações internas da própria Corregedoria da Receita Federal.
Foi esse trabalho inicial que identificou indícios da existência de uma organização criminosa estruturada.
E quanto dinheiro pode ter circulado nesse esquema?
Segundo os dados reunidos na investigação, as fraudes constatadas somam cerca de R$ 86,6 bilhões entre julho de 2021 e março de 2026. No mesmo período, quase 17 mil Declarações de Importação apresentam indícios de irregularidades, de acordo com informações da Receita Federal.
Isso significa que o problema estava restrito a um único tipo de operação?
A investigação aponta duas frentes.
Uma delas envolvia a liberação irregular de mercadorias no porto.
A outra alcançava o setor de óleo e gás.
Em ambas, segundo os investigadores, o pagamento de propinas era recorrente e estruturado, com valores que chegariam à casa de dezenas de milhões de reais ao longo do período investigado.
Por que a apreensão do dinheiro em espécie chama tanta atenção?
Porque ela surge como um dos sinais mais visíveis de um caso que, até aqui, vinha sendo descrito principalmente por documentos, declarações de importação e cruzamento de dados.
Quando a PF encontra uma quantidade tão grande de dinheiro vivo na casa de um servidor investigado, a operação deixa de ser apenas uma apuração técnica e ganha um símbolo concreto do tamanho da suspeita.
Ainda assim, o ponto principal aparece perto do fim da linha investigativa já revelada pelas autoridades: o foco não está apenas no dinheiro encontrado, mas no suposto uso da estrutura pública para liberar cargas de forma irregular dentro de um dos principais pontos de entrada de mercadorias do país.
É isso que transforma a operação em um caso de grande impacto.
Os investigados poderão responder por corrupção, associação criminosa, contrabando, descaminho e lavagem de dinheiro, entre outros crimes.
A contagem do dinheiro apreendido ainda deve trazer novos elementos, mas o que já se sabe é suficiente para expor a gravidade do caso.
No centro de tudo, está a suspeita de que a fiscalização que deveria barrar irregularidades acabou, segundo a investigação, sendo usada para permitir que elas passassem.