Uma carona de volta a Brasília acabou puxando um fio que agora alcança ministros do STF, um banqueiro preso, pagamentos milionários e um alerta vindo do próprio presidente da República.
Mas o que, de fato, aconteceu com Gilmar Mendes?
Segundo informação revelada pelo jornal O Estado de S.
Paulo, o ministro usou, em 1º de janeiro de 2025, um avião operado por empresa ligada ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O voo saiu de Diamantino, no Mato Grosso, e seguiu para Brasília às 16h38, de acordo com registros do Aeroporto de Brasília.
Por que ele estava em Diamantino?
Porque havia ido à posse do irmão, Chico Mendes, eleito prefeito da cidade com 56% dos votos em 2024. Até aí, nada fora do comum.
A dúvida começa depois: como esse retorno passou a chamar tanta atenção?
A resposta está na aeronave.
O avião era um Phenom 300 da Embraer, operado pela empresa Prime You, da qual Vorcaro foi sócio.
E é justamente esse vínculo que transformou um deslocamento aparentemente simples em um caso de repercussão nacional.
Gilmar sabia dessa ligação?
Segundo o próprio ministro, não.
Ele afirmou que aceitou uma carona oferecida por Marcos Molina, presidente do conselho da companhia formada pela fusão entre BRF e Marfrig, sem saber da relação do avião com o empresário do Banco Master.
A empresa confirmou a viagem e informou que Molina possui cota da aeronave, mas negou qualquer relação pessoal ou comercial entre ele e Vorcaro.
Então por que o episódio não parou aí?
Porque esse voo não apareceu isolado.
E é aqui que muita gente começa a se surpreender.
De acordo com o Estadão, pelo menos quatro ministros do STF utilizaram aeronaves ligadas a Vorcaro.
Além de Gilmar, os registros citam Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.
Quantos voos foram identificados?
Os dados apontam ao menos 11 viagens feitas por ministros e familiares em aviões ligados ao empresário.
O nome que mais aparece é o de Alexandre de Moraes, com oito deslocamentos registrados, principalmente para São Paulo.
Em um dos episódios, ele teria se reunido com Vorcaro no dia seguinte a um voo.
E os outros ministros?
Dias Toffoli teria usado aeronaves em viagens para um resort no interior.
Já Kassio Nunes Marques confirmou deslocamento para Maceió em voo pago por uma advogada ligada ao Banco Master.
Nenhum deles admite vínculo com o empresário.
Mas há um detalhe que quase passa despercebido: a história dos voos ganhou outra dimensão quando surgiram informações sobre relações financeiras envolvendo o banco.
Documentos da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado indicam que o Banco Master pagou mais de R$ 40 milhões, em 2024, ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, segundo a Folha de S.
Paulo.
Esse valor foi confirmado?
O escritório confirmou a prestação de serviços, mas contestou os valores divulgados e afirmou que os dados são sigilosos.
Os repasses, segundo a informação publicada, teriam sido feitos em 11 parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões.
Moraes não comentou o caso.
O que aconteceu depois?
O contrato teria sido encerrado após a liquidação do banco e a prisão de Vorcaro.
Antes disso, a Procuradoria-Geral da República já havia arquivado um pedido de investigação sobre Moraes por não identificar irregularidades.
Então há ilegalidade comprovada?
Até aqui, o que existe são registros, confirmações pontuais, negativas de vínculo e investigações em andamento.
Mas o ponto que elevou a pressão não veio apenas dos documentos.
Veio também da política.
Por quê?
Em entrevista ao ICL Notícias, Lula disse que, mesmo quando não há ilegalidade, certas situações podem gerar desgaste.
A frase foi direta: algo pode ser legal, mas, aos olhos do povo, parecer imoral.
E isso ficou só no campo da opinião?
Não exatamente.
Lula relatou ter aconselhado Moraes a preservar sua trajetória no STF, sugerindo mais transparência e até o afastamento de decisões relacionadas ao caso, como forma de proteger a credibilidade institucional.
Mas a pressão parou aí?
Não.
Em meio à repercussão, o ministro André Mendonça, relator de investigações que envolvem o Banco Master e fraudes no INSS, reforçou publicamente a necessidade de imparcialidade no Judiciário.
Sem citar diretamente os episódios, afirmou que não cabe ao magistrado “privilegiar amigos ou perseguir inimigos”.
O que tudo isso revela até agora?
Que o caso deixou de ser apenas sobre um voo de Gilmar Mendes.
A carona que ele diz ter aceitado sem conhecer a ligação da aeronave com Vorcaro passou a integrar um quadro maior, com 11 voos registrados, nomes centrais do STF, relações indiretas com o Banco Master, pagamentos sob questionamento público e investigações que seguem abertas.
E o que ainda pode surgir?
As apurações envolvendo o banco continuam no centro das atenções e podem ter novos desdobramentos, inclusive com possibilidade de delações.
É justamente aí que a história muda de escala — porque o que começou com um embarque em Diamantino talvez ainda esteja longe de mostrar tudo o que pode alcançar.