Parece improvável, mas o temor de uma ofensiva externa contra as urnas brasileiras ainda ronda os bastidores — e justamente por isso a avaliação mais recente chama atenção.
Se existe esse alerta, por que o governo acredita que Donald Trump não deve atacar o sistema eleitoral do Brasil?
A resposta começa por um ponto simples, mas decisivo: no entendimento de auxiliares de Lula, faltaria base real para sustentar esse tipo de questionamento.
Mas por que essa base seria tão importante?
A leitura no Planalto é que a maioria dos brasileiros considera o sistema confiável, e isso enfraqueceria um eventual discurso vindo de fora.
Só que isso, por si só, bastaria para afastar o risco?
Não completamente.
E é aí que surge um detalhe que quase passa despercebido: além da confiança nas urnas, o governo vê outro freio poderoso em jogo, a soberania nacional.
A avaliação de interlocutores de Lula é que, quando há um ataque externo percebido como explícito, a reação tende a ser negativa até em setores que normalmente não estariam ao lado do governo.
Em outras palavras, mexer nesse ponto poderia produzir o efeito contrário ao desejado.
Mas por que isso pesaria tanto agora?
Porque, segundo auxiliares do presidente, os americanos saberiam que questionar as eleições brasileiras poderia até fortalecer Lula politicamente.
E aqui está uma das partes mais sensíveis dessa conta: quando a soberania entra no centro do debate, a crítica externa deixa de atingir apenas o governo e passa a tocar um valor que ainda mobiliza grande parte da população.
O que parece ataque institucional pode virar combustível eleitoral.
Só que de onde vem essa convicção?
Ela não nasce no vazio.
Interlocutores do governo citam episódios recentes que reforçaram essa percepção.
Um deles foi o tarifaço.
Outro, a repercussão negativa da bandeira americana estendida por bolsonaristas na Avenida Paulista, em São Paulo, no 7 de setembro de 2025. O gesto foi mal recebido e acabou sendo explorado por políticos de esquerda como símbolo de submissão.
E é aqui que muita gente se surpreende: o episódio não enfraqueceu apenas a imagem da direita naquele momento, como também ajudou a consolidar a ideia de que a defesa da soberania pode render politicamente.
Então o tema já entrou na estratégia eleitoral?
Sim.
O PT pretende usar a defesa da soberania na campanha de reeleição de Lula, e esse discurso já aparece em falas do presidente sobre Pix, terras raras e minerais críticos.
Mas se a confiança é essa, por que o governo ainda mantém o sinal de alerta ligado?
Porque confiança não significa ingenuidade.
Auxiliares de Lula admitem que o Brasil segue atento a uma possível interferência dos Estados Unidos na eleição, mesmo com a melhora da relação entre Lula e Trump.
Esse cuidado é tratado como rescaldo de episódios do segundo semestre de 2025, quando houve tentativa de pressão sobre o sistema político brasileiro com o tarifaço e a Lei Magnitsky.
Depois disso, os dois líderes construíram uma relação descrita pelo Planalto como cordial.
Mas o que acontece depois muda tudo: cordialidade, para o governo, não elimina risco.
E há sinais concretos para essa cautela?
Há, e um deles veio de fora do governo brasileiro.
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, pediu o monitoramento do pleito brasileiro durante o CPAC, conferência conservadora realizada em março, em Dallas, no Texas.
Isso muda o cenário?
Não necessariamente de forma imediata, mas mostra que o tema pode ser estimulado por aliados ideológicos, mesmo sem adesão ampla no Brasil.
Mas como o Planalto pretende medir esse risco de forma mais objetiva?
Observando o que acontece em outro país.
Auxiliares de Lula tratam a eleição da Hungria, neste domingo, como uma espécie de primeira referência para avaliar até onde o governo americano pode ir em disputas externas.
Trump apoia o primeiro-ministro Viktor Orbán, da ultradireita, que pode perder para Péter Magyar, líder do partido Tisza.
O apoio americano foi explícito: J.
D.
Vance esteve no país para transmitir o respaldo de Trump, e Marco Rubio também foi à Hungria para fazer campanha.
Então qual é o ponto central de tudo isso?
O governo Lula hoje não vê risco relevante de Trump atacar as urnas na eleição brasileira, porque avalia que faltariam apoio popular, ambiente político e vantagem estratégica para isso.
Ainda assim, o Planalto não baixa a guarda — porque, quando o assunto envolve eleição, influência externa e soberania, o que parece improvável nunca é tratado como impossível.