Há uma frase que, sozinha, acende um alerta difícil de ignorar: o Brasil estaria vivendo um “fiscal pandêmico sem pandemia”.
Mas o que isso realmente quer dizer?
Quer dizer que, na avaliação de quem fez a crítica, o governo federal está gastando hoje em nível superior ao registrado no período mais agudo da crise sanitária de 2020. E por que essa comparação pesa tanto?
Porque a pandemia foi justamente o momento em que despesas extraordinárias pareciam inevitáveis, o que transforma qualquer paralelo com aquele período em algo politicamente explosivo.
Mas quem fez essa afirmação e em que contexto ela apareceu?
A declaração foi dada por Paulo Guedes, ex-ministro da Fazenda, durante uma palestra em São Paulo, na sexta-feira, 17. Só que a fala não ficou restrita a uma crítica pontual.
Ela veio acompanhada de uma defesa direta da própria gestão e de um diagnóstico mais amplo sobre o rumo das contas públicas.
E qual é esse diagnóstico?
Segundo Guedes, o país perdeu a disciplina fiscal.
Parece uma expressão técnica, mas o efeito prático, segundo ele, é simples de entender: quando o fiscal está sólido, a moeda tende a ficar mais estável e os juros podem permanecer em níveis mais baixos.
Quando isso se perde, o cenário muda.
E é justamente aí que muita gente se surpreende: para ele, o “freio monetário” começa a ser puxado quando o fiscal fica frouxo.
Mas por que essa relação entre gasto, juros e atividade econômica importa tanto agora?
Porque, na visão do ex-ministro, o aumento das despesas pressiona os juros e acaba afetando o ritmo da economia.
Em outras palavras, o gasto de hoje não ficaria isolado no Orçamento.
Ele se espalharia pelo crédito, pelo custo do dinheiro e pela capacidade de crescimento do país.
Só que essa crítica se sustenta em números ou fica apenas no discurso?
Guedes citou um dado específico para defender sua passagem pelo governo: afirmou que encerrou o mandato, ao fim de 2022, com a Dívida Bruta do Governo Geral em 71,7% do PIB.
E o que aconteceu depois?
Dados do Banco Central indicam que a DBGG chegou a 79,2% do PIB em fevereiro do último ano do governo atual.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe de imediato: esse indicador não olha apenas para uma parte da máquina pública.
A DBGG reúne dívidas do governo federal, do INSS e também de Estados e municípios.
Ou seja, quando esse número sobe, ele ajuda a medir uma pressão mais ampla sobre as contas do setor público.
E essa dívida já foi maior antes?
Sim, e esse ponto muda a leitura.
Em 2020, no auge da pandemia, o índice atingiu 86,9% do PIB.
Em 2021, ficou em 77,3%.
Isso significa que o patamar atual ainda está abaixo do pico da crise sanitária.
Então por que a fala de Guedes chama tanta atenção?
O que acontece depois deixa a discussão ainda mais sensível.
O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 projeta alta da dívida pública nos próximos anos, com pico em 2029, quando a DBGG pode alcançar 87,8% do PIB.
E para onde isso pode ir além?
Isso significa que o problema já está definido?
Não exatamente.
Mas significa que as projeções colocam pressão sobre o debate atual.
E é aqui que a maioria trava na superfície: a discussão não é só sobre quanto se gasta, mas sobre o que esse gasto sinaliza para frente.
Se a trajetória esperada é de alta, o mercado, os juros e as decisões de investimento passam a reagir antes mesmo de o problema atingir o limite.
Então qual é o ponto central de tudo isso?
Guedes sustenta que o governo atual já gasta mais do que sua equipe gastou, inclusive em comparação com o período da pandemia, e usa essa crítica para afirmar que o país abandonou a disciplina fiscal.
Ao mesmo tempo, ele diz que, com equilíbrio nas contas públicas, o Brasil poderia crescer acima de 3% ao ano.
Mas a parte mais incômoda talvez esteja justamente no que ainda não se resolveu: se o gasto elevado pressiona juros, enfraquece a moeda e limita o crescimento, até que ponto o país está discutindo apenas números do presente, quando o verdadeiro impacto pode estar sendo empurrado para os próximos anos?