O que exatamente se mede quando alguém pergunta se um ministro do STF agrada ou desagrada?
A dúvida parece simples, mas esconde um problema muito maior: desde quando o trabalho de um juiz passou a ser avaliado como se fosse o de uma figura pública em busca de aprovação?
A resposta incomoda justamente porque toca no centro da função judicial.
Para vários juristas, esse tipo de pesquisa parte de uma lógica equivocada.
O papel de um juiz não é conquistar simpatia, nem produzir decisões que soem confortáveis para a maioria.
Sua função é aplicar a lei e cumprir o que a Constituição determina.
Mas se isso é tão básico, por que a discussão ganhou força?
Porque uma pesquisa de popularidade sobre ministros do Supremo Tribunal Federal reacendeu um debate que vai além dos números.
O questionamento feito foi direto: qual é a lógica de perguntar ao cidadão se determinado ministro lhe agrada?
A provocação não é apenas retórica.
Ela aponta para uma confusão entre aprovação popular e qualidade técnica.
E é justamente aí que muita gente para de perceber o que está em jogo.
Se um juiz decide contra a vontade da maioria, isso significa que ele atua mal?
Não necessariamente.
E aqui está um ponto que muda toda a leitura do tema.
Em uma corte constitucional, muitas decisões são, por natureza, contramajoritárias.
Ou seja: elas existem justamente para proteger a Constituição mesmo quando isso contraria o humor dominante da sociedade.
Então como transformar isso em índice de simpatia?
Foi essa a crítica feita por nomes do Direito que reagiram à pesquisa.
Lenio Streck, por exemplo, classificou esse tipo de avaliação como uma questão empírico-populista.
A pergunta dele é devastadora pela simplicidade: o que exatamente está sendo avaliado?
Se o juiz é bom?
Se julga bem ou mal?
Se trabalha muito ou pouco?
E em relação a quê?
Quando essas bases não estão claras, o número pode impressionar, mas diz muito menos do que parece.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe: o problema não está apenas na pergunta, e sim no que ela sugere.
Ao medir “popularidade”, cria-se a impressão de que a atuação de ministros pode — ou deve — ser lida pela régua da aceitação pública.
E isso, para parte dos juristas, distorce completamente a natureza da função judicial.
Afinal, um tribunal constitucional existe para refletir a opinião do momento ou para guardar a Constituição mesmo sob pressão?
Para reforçar essa crítica, Streck citou um exemplo clássico do livro Como Mentir com Estatística, de Darrell Huff.
A comparação é conhecida: pode-se encontrar correlação entre aumento no consumo de sorvetes e ataques de tubarão.
Mas isso não significa que uma coisa cause a outra.
Ambas crescem no verão, e só.
A lembrança serve para desmontar a sedução dos dados quando eles parecem explicar mais do que realmente explicam.
E se isso vale para estatísticas em geral, o que dizer quando o objeto da pesquisa é o desempenho de juízes?
Foi nesse ponto que Pedro Serrano aprofundou a crítica.
Segundo ele, a função de uma suprema corte em um sistema de Constituição rígida, como o brasileiro, é justamente proferir decisões contramajoritárias, e não ser agradável ou aprovada pela maioria da população.
Isso significa que o tribunal deve ouvir a sociedade?
Sim.
Mas deve se orientar pela opinião pública?
Para ele, não.
E é aqui que a maioria se surpreende: ouvir não é o mesmo que seguir.
Só que o debate não terminou aí.
Se a popularidade não mede a qualidade de um ministro, então a pesquisa não serve para nada?
Essa é a pergunta que recoloca a curiosidade no centro da discussão.
E a resposta não veio em tom de concordância total.
O professor Rubens Glezer, da FGV Direito, apresentou a contraparte.
Para ele, a avaliação da instituição como um todo se relaciona com a legitimidade do tribunal na sociedade.
O ideal, segundo sua visão, é que o cidadão, mesmo discordando de decisões do Supremo, reconheça ali qualidade técnica e não mero cálculo político.
Nesse sentido, a pesquisa teria utilidade não para medir quem “agrada”, mas para observar como a sociedade enxerga a instituição.
Então o ponto central é esse: a crítica não recai apenas sobre números, mas sobre o risco de transformar a Justiça em disputa de aprovação.
De um lado, juristas sustentam que juiz não existe para agradar ninguém.
De outro, há quem veja valor em entender como o tribunal é percebido pela população.
O que acontece depois muda tudo, porque a questão deixa de ser apenas sobre uma pesquisa e passa a ser sobre algo maior: até onde a legitimidade pode dialogar com a popularidade sem se confundir com ela?