A crítica veio seca, direta e sem blindagem.
Durante um almoço com empresários em São Paulo, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, fez um ataque duro ao ex-presidente Jair Bolsonaro e também reservou críticas ao atual governo Lula.
A fala chamou atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo peso político de quem a fez e pelo ambiente em que foi dita.
Em vez de um discurso protocolar, Kassab expôs uma avaliação contundente sobre os dois principais polos da política nacional.
O ponto mais forte foi dirigido a Bolsonaro.
Kassab afirmou que, ao assumir a Presidência em 2018, o então chefe do Executivo não tinha “nenhuma vocação para a vida pública”.
A frase foi acompanhada de outra avaliação igualmente severa.
Segundo ele, o desempenho pessoal de Bolsonaro ficou “muito aquém das expectativas dos brasileiros”, que esperavam algo “totalmente diferente”.
A pergunta que surge é simples: o que Kassab apontou como razão para o governo ter chegado ao fim?
A resposta dele foi clara.
Na visão do dirigente do PSD, Bolsonaro contou com a ajuda de alguns ministros que sustentaram a administração.
Kassab destacou especialmente Paulo Guedes, a quem chamou de “presidente da Economia”, dizendo que, entre 25 ministérios, ele era quem de fato comandava.
Também citou Tarcísio de Freitas e Tereza Cristina como nomes importantes.
E fez um complemento revelador ao encerrar a lista: “mas a gente vai ficando por aí”.
Esse detalhe muda o peso da declaração.
Kassab não apenas criticou Bolsonaro.
Ele sugeriu que os méritos do governo estiveram concentrados em poucos auxiliares, e não na liderança do então presidente.
Em outras palavras, separou a figura de Bolsonaro daquilo que considera ter funcionado em sua gestão.
Mas a fala não parou no ex-presidente.
Kassab também voltou sua análise para Lula.
E aqui apareceu uma contradição política relevante.
Ao mesmo tempo em que reconheceu programas conhecidos dos governos petistas, como Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos e Bolsa Família, ele atacou a forma como Lula conduz a máquina pública.
Segundo Kassab, o petista “sabe gastar, mas não sabe administrar” para tornar o Estado mais eficiente.
O que isso significa, na prática, segundo a fala do presidente do PSD?
Significa que, para ele, o governo atual amplia despesas e aumenta o peso sobre quem produz, sem entregar uma estrutura pública mais eficiente.
Kassab classificou como “brutal” o aumento da carga tributária no terceiro mandato de Lula.
E foi ainda mais incisivo ao citar Lula e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, afirmando que ambos, “sem dó nem piedade”, impõem tributação sobre dividendos sem reduzir a carga das empresas.
Essa comparação levou a outro ponto importante do discurso.
Kassab colocou Paulo Guedes em posição mais favorável nesse debate.
Disse que o ex-ministro do governo Bolsonaro ao menos teve o cuidado de propor a tributação de dividendos junto com a redução da tributação das empresas.
A observação reforça uma crítica frequente ao governo Lula e ao campo progressista: aumentar impostos sem contrapartida concreta para aliviar o setor produtivo.
Por que essa fala repercute tanto?
De um lado, Bolsonaro é retratado por Kassab como alguém sem vocação pública e com desempenho abaixo do esperado.
De outro, Lula é descrito como um governante que gasta, mas não administra com eficiência, além de elevar a carga tributária de forma pesada.
Perto do fim, fica claro qual foi o centro da mensagem.
Kassab tentou marcar distância dos dois modelos.
Ao criticar Bolsonaro pela falta de preparo e Lula pelo peso do Estado e dos impostos, o presidente do PSD desenhou uma posição de contraste.
Não foi uma fala lateral.
Foi uma intervenção política calculada, feita diante de empresários, com recados duros sobre liderança, gestão e tributação.
No fim, a declaração deixa uma pergunta inevitável: se Bolsonaro decepcionou e Lula sobrecarrega, quem ocupará esse espaço de alternativa?
Mas, ao atacar os dois polos, deixou evidente que quer participar dessa construção.