Ele não está apenas falando com um adversário estrangeiro.
Está tentando transformar esse confronto em combustível político dentro de casa.
Mas por que elevar tanto o tom agora?
A pergunta que surge é simples: trata-se de política externa ou de cálculo eleitoral?
A resposta começa a aparecer quando se observa a sequência de provocações.
Houve ironias públicas, piadas com jabuticabas, comentários sobre Nobel da Paz e referências até à coragem dos cangaceiros para rebater o que Lula chama de autoritarismo do americano.
Só que isso levanta outra dúvida: por que insistir tanto nesse personagem específico?
Porque há um efeito político que já foi percebido antes.
Quando o embate com Washington ganhou força, especialmente após barreiras comerciais e sanções anunciadas pela Casa Branca, a imagem de Lula melhorou temporariamente.
E é aqui que muita gente se surpreende: o conflito externo ajudou a frear a queda de popularidade e ainda colocou a oposição na defensiva.
Mas isso foi apenas impressão ou houve reflexo concreto?
Houve números.
Levantamentos mostraram avanço na aprovação e recuo na desaprovação em meio ao tarifaço e à reação do governo brasileiro.
Em uma das medições, a aprovação saiu de 40% em maio para 43% em julho e 46% em agosto.
Em outra, chegou a superar numericamente a desaprovação no fim de julho, antes de recuar no mês seguinte.
O que isso sugere?
Que o embate com os Estados Unidos pode funcionar como atalho narrativo para reorganizar apoio político.
Só que por que esse tipo de narrativa costuma funcionar?
Porque desloca o foco.
Em vez de deixar o debate preso às crises internas, o governo tenta reposicionar a disputa em torno da soberania nacional.
A lógica não é nova, segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo.
Ao criar um inimigo externo, o governo reduz a pressão doméstica e recompõe parte da base.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe: isso depende de manter a tensão viva, sem resolvê-la rápido demais.
É por isso que cada novo episódio ganha peso maior do que teria isoladamente?
Em parte, sim.
O caso da expulsão de um delegado da Polícia Federal do posto de ligação no ICE foi tratado pelo governo como agressão ao Brasil, e Lula determinou reciprocidade com a expulsão de um agente americano.
Nos Estados Unidos, porém, o episódio foi tratado de forma mais contida.
O que acontece depois muda tudo: a diferença de tom ajuda o governo brasileiro a sustentar internamente a ideia de enfrentamento.
Mas quem Lula quer atingir de verdade ao mirar Trump?
A resposta não está só em Washington.
Ao tensionar a relação com os Estados Unidos, o presidente busca associar Trump à direita brasileira, sobretudo ao senador Flávio Bolsonaro.
Assim, o embate deixa de ser apenas diplomático e passa a servir como simplificação eleitoral: de um lado, a defesa da democracia e da soberania; do outro, a ameaça autoritária que o governo tenta colar aos adversários.
E por que isso ganha ainda mais força agora?
Porque Lula parece apostar também no desgaste internacional de Trump.
Desde o conflito envolvendo EUA, Israel e Irã, o presidente brasileiro acompanha a piora da aprovação do americano.
Pesquisas recentes nos Estados Unidos indicaram índices entre 36% e 37% de aprovação, com desaprovação elevada.
Isso abre uma nova frente de curiosidade: Lula está apenas reagindo a Trump ou tentando capturar politicamente a rejeição global ao trumpismo?
Os sinais apontam para a segunda hipótese.
Em viagens à Colômbia, Espanha, Portugal e Alemanha, Lula intensificou críticas diretas ao americano.
Também aproveitou o choque entre Trump e o papa Leão XIV para se solidarizar com o pontífice e reforçar o discurso de que líderes não devem governar pelo medo.
Parece improviso?
Não exatamente.
Analistas descrevem a estratégia como uma lógica de morde e assopra, em que qualquer movimento de Trump pode ser convertido em ganho político.
Mas isso basta para garantir o plano de reeleição?
Aí está o ponto mais delicado.
Mesmo com o benefício temporário do confronto externo, crises internas continuam sendo variáveis muito mais sensíveis.
Casos como os do INSS e do Banco Master seguem como ameaças reais ao projeto político do presidente.
Ou seja, o inimigo externo ajuda, mas não resolve tudo.
Então por que insistir tanto?
Porque manter o conflito em estado latente pode ser mais útil do que encerrá-lo.
A eventual reunião entre Lula e Trump, cogitada para breve, foi empurrada para o segundo semestre, se ainda acontecer.
E esse adiamento preserva exatamente o que interessa politicamente: uma tensão permanente, pronta para ser explorada na pré-campanha.
No fim, a aposta parece clara.
Lula não provoca Trump apenas para responder a Washington.
Provoca porque descobriu que, quando o americano entra em cena, parte do debate interno muda de eixo.
E se esse adversário externo continuar rendendo dividendos políticos, a campanha pode girar menos em torno dos problemas do governo e mais em torno do medo que ele quer despertar no eleitor.
A questão que fica é outra: até quando esse confronto sustenta a narrativa sem cobrar um preço maior?