Ele não está apenas provocando um adversário estrangeiro, está tentando transformar esse confronto em combustível político dentro de casa.
Mas por que um presidente escolheria elevar o tom contra outro líder justamente agora?
A resposta começa na pressão interna.
Com rejeição persistente ao governo e com o fortalecimento de um rival ligado ao campo bolsonarista, Lula passou a apostar em um roteiro conhecido: deslocar o centro do debate para um embate externo e vestir esse movimento com a linguagem da soberania nacional.
E como isso aparece na prática?
Aparece nas falas, nos gestos e nas ironias.
Nos últimos dias, Lula voltou a sugerir que levaria jabuticabas para acalmar Donald Trump.
Antes disso, em Portugal, ironizou o americano ao dizer que seria preciso dar a ele um Nobel da Paz para que parasse de fazer guerras.
Em outras ocasiões, evocou até a coragem dos cangaceiros para se contrapor ao que chama de autoritarismo vindo dos Estados Unidos.
Mas isso é só retórica ou existe cálculo político por trás?
Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a lógica é antiga e bastante funcional: quando o foco sai das crises domésticas e migra para um conflito internacional, o governo ganha espaço para recompor sua base e reduzir a pressão interna.
O inimigo externo ajuda a reorganizar o discurso interno.
E por que Trump?
Porque ele oferece algo raro nesse tipo de disputa: rejeição internacional, forte carga simbólica e conexão direta com a direita brasileira.
Ao tensionar a relação com Washington, Lula tenta associar Trump ao campo adversário no Brasil, especialmente ao senador Flávio Bolsonaro.
Com isso, simplifica a disputa e reforça a narrativa de que a eleição será um confronto entre democracia e ameaça autoritária.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe: essa estratégia já mostrou resultado.
No segundo semestre de 2025, quando a Casa Branca anunciou barreiras comerciais e outras sanções contra o Brasil, a reação de Lula ajudou a melhorar temporariamente sua imagem.
Pesquisas da Genial Quaest mostraram avanço da popularidade de 40 por cento em maio para 43 por cento em julho e 46 por cento em agosto.
No mesmo período, a desaprovação recuou para 51 por cento.
A AtlasIntel registrou em julho aprovação de 50,2 por cento, acima da desaprovação de 49,7 por cento, algo inédito naquele ano, antes de nova queda em agosto.
Então Lula estaria torcendo por novas reações de Trump?
Os sinais apontam nessa direção.
No dia 14, o presidente brasileiro ironizou a hipótese de interferência de Trump nas eleições do Brasil e disse que isso até o ajudaria muito.
A frase chama atenção porque, ao mesmo tempo em que condena qualquer ingerência estrangeira como violação da soberania, Lula sugere que um gesto hostil do americano poderia render dividendos políticos internos.
E o que aconteceu além dos discursos?
Houve também um episódio diplomático que o governo tentou transformar em símbolo de agressão ao Brasil.
A expulsão de um delegado da Polícia Federal do posto de oficial de ligação no ICE, agência americana de combate à imigração ilegal, foi tratada em Brasília com forte carga política.
O policial é investigado por supostamente manipular o sistema de imigração dos EUA para forçar a deportação do ex-deputado Alexandre Ramagem.
Lula reagiu determinando a expulsão de um agente americano do Brasil com base no princípio da reciprocidade.
Mas os Estados Unidos trataram isso da mesma forma?
E esse contraste muda bastante a leitura do caso.
Enquanto o governo brasileiro elevou o episódio ao plano político, os americanos adotaram tom mais contido.
Isso reforça a percepção de que, do lado brasileiro, o atrito interessa também como narrativa.
Só que a história não para aí.
O que acontece depois muda tudo, porque o confronto não surgiu do nada.
A relação entre Lula e Trump se deteriorou rapidamente após um breve ensaio de aproximação.
Em poucas semanas, crises diplomáticas e políticas enterraram o diálogo.
Lula aproveitou inclusive o choque entre Trump e o papa Leão XIV, depois que o pontífice pediu paz no Irã e foi atacado pelo presidente americano.
Lula saiu em defesa do papa e intensificou o discurso de que líderes não devem governar pelo medo.
E por que esse momento internacional importa tanto?
Porque Lula acompanha o desgaste de Trump também fora do Brasil.
Pesquisas de abril de 2026 indicaram aprovação entre 36 por cento e 37 por cento nos Estados Unidos, com forte desaprovação impulsionada pela guerra com o Irã e pelo custo de vida.
Ao perceber esse enfraquecimento, Lula tenta incorporar esse sentimento à própria retórica.
Mas isso basta para garantir vantagem eleitoral?
Não necessariamente.
E aqui está o ponto central.
Para analistas, Trump funciona como um cabo eleitoral involuntário de Lula, mas crises internas continuam sendo muito mais perigosas para o projeto de reeleição.
Casos como os do INSS e do Banco Master seguem como variáveis mais sensíveis do que qualquer embate com Washington.
Então por que insistir tanto?
Porque manter o conflito em estado latente pode ser politicamente útil.
A eventual reunião entre Lula e Trump em Washington foi empurrada para o segundo semestre, se ainda acontecer.
O adiamento preserva a tensão sem resolvê-la.
E talvez seja exatamente isso que interessa agora: não encerrar o confronto, mas mantê-lo vivo o suficiente para que continue rendendo aqui dentro.