Ele pode continuar aberto por mais dois anos, e essa possibilidade diz muito mais sobre o clima político e institucional do país do que parece à primeira vista.
Mas por que isso chama tanta atenção agora?
Porque não se trata de uma investigação qualquer, nem de um prazo técnico que passou despercebido.
O que está em jogo é a sinalização de que um dos inquéritos mais controversos e duradouros do país pode atravessar mais um ciclo eleitoral e seguir vivo até 2027.
E por que justamente 2027?
Porque foi essa a indicação feita a colegas da Corte por Alexandre de Moraes, que pretende manter o inquérito das fake news ativo ao menos até o ano em que deverá assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, sucedendo Edson Fachin.
Só que essa resposta abre outra pergunta inevitável: por que manter algo assim por tanto tempo?
A justificativa, dentro do tribunal, passa pelo temor de uma nova onda de ataques à própria Corte.
A avaliação de uma ala do Supremo é que o ambiente eleitoral de 2026 pode reacender pressões, campanhas de desinformação e ofensivas contra ministros.
E é aqui que muita gente se surpreende: mesmo após a condenação e prisão de golpistas e após um cenário de maior normalidade democrática, a percepção interna não é de encerramento do risco.
Mas esse inquérito não nasceu em outro contexto?
A investigação foi aberta em 2019 por determinação de Dias Toffoli, então presidente do STF, com o objetivo declarado de apurar ataques a membros da Corte.
Naquele momento, Toffoli escolheu Moraes como relator sem sorteio, o que desde o início alimentou críticas e questionamentos.
E por que ele foi tão contestado?
Porque houve forte reação no Ministério Público.
A então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu o arquivamento.
Na visão dela, não havia previsão legal para que um juiz identificasse um fato criminoso, determinasse a abertura do inquérito e ainda designasse quem o conduziria.
Moraes negou o pedido.
Toffoli, por sua vez, sustentou que a abertura se baseava no regimento interno do tribunal.
Então o inquérito ficou sob ameaça de cair?
Ficou, mas não caiu.
Em 2020, o Supremo decidiu pela validade da investigação por 10 votos a 1. O único voto contrário foi o do então ministro Marco Aurélio, que chamou o caso de “inquérito do fim do mundo”.
O que acontece depois ajuda a entender por que o tema nunca saiu realmente de cena.
Naquele período, o tribunal estava sob pressão da extrema direita.
Jair Bolsonaro, então presidente, transformava o STF em alvo central de seu discurso político.
Isso deu ao inquérito um peso que ultrapassava o aspecto jurídico e o colocava também no centro da defesa institucional da Corte.
Mas há um ponto que quase ninguém observa de imediato: a expectativa de encerramento cresceu justamente quando o cenário parecia menos explosivo.
E por que ele não foi encerrado então?
Porque, para ministros que defendem sua continuidade, o risco não desapareceu, apenas mudou de ritmo.
A leitura é que o ano eleitoral pode recolocar o Supremo no centro de ataques organizados.
Um ministro resumiu essa visão de forma direta: o ideal seria que o inquérito não estivesse mais aberto, mas o país ainda está longe do cenário ideal em ano de eleição.
Só que existe outro fator que altera o equilíbrio dessa discussão.
Qual?
A posição da Procuradoria-Geral da República.
Se antes houve resistência, agora o atual procurador-geral, Paulo Gonet, apoia a continuidade das investigações e vê o inquérito como instrumento legítimo.
Essa mudança enfraquece uma das críticas mais importantes que o caso enfrentou no início.
E o que exatamente esse inquérito investiga hoje?
Atualmente, ele serve para apurar servidores da Receita suspeitos de vazar dados sigilosos de ministros do STF.
Isso mostra que, embora tenha nascido para investigar ataques e desinformação contra a Corte, seu alcance foi se adaptando a fatos considerados sensíveis para o tribunal.
Mas o detalhe decisivo está no fim: a intenção de mantê-lo até 2027 não é apenas uma escolha de calendário.
É um recado sobre como parte do Supremo enxerga o que ainda pode acontecer até 2026 e depois disso.
O ponto principal, portanto, não é só a duração do inquérito.
É a mensagem de que, dentro da Corte, a ameaça que justificou sua criação ainda não foi considerada superada.
E se essa percepção continuar crescendo, a discussão sobre seus limites pode ficar ainda maior antes mesmo de 2027 chegar.