Uma frase dita no Supremo reacendeu uma ferida que o país acompanha há anos — e, ao mesmo tempo, lançou uma acusação direta sobre o que teria faltado quando mais se cobrava resposta.
Mas o que foi dito de tão forte?
E essa crítica não foi genérica, nem abstrata.
Ela teve alvo, momento e consequência.
Qual foi o ponto central da fala?
O ministro afirmou que o caso só avançou de fato depois da chegada de Flávio Dino ao Ministério da Justiça.
Antes disso, na visão dele, a condução não teve o impulso necessário.
E é justamente aí que surge a pergunta que prende tudo: se o avanço veio depois, o que teria faltado antes?
A resposta apareceu em tom duro.
Gilmar declarou que Sergio Moro, quando passou pelo ministério no governo Jair Bolsonaro, “não colocou prioridade na investigação do caso Marielle”.
A frase ganhou ainda mais peso porque veio acompanhada de uma observação cortante: as razões, disse ele, “o diabo Deus deve saber”.
Mas por que essa declaração chama tanta atenção agora?
Porque ela não trata apenas de opinião política.
Ela mexe com a narrativa sobre quem agiu, quem deixou de agir e em que momento a apuração começou a produzir resultados mais concretos.
E há um detalhe que quase ninguém percebe de imediato: a fala foi feita durante uma sessão do STF sobre outro tema, o que tornou a crítica ainda mais inesperada.
E o que Gilmar apontou além da falta de prioridade?
Ele mencionou que a intervenção federal no tema foi decisiva para que o caso fosse elucidado.
Também lembrou que, em determinado momento, houve impedimento para a transferência da apuração à esfera federal.
Segundo ele, o STJ não aceitou a chamada federalização do caso, sob o argumento de que isso poderia gerar uma imagem negativa para a Justiça do Rio.
Por que isso importa tanto?
Porque o caso foi investigado no Rio de Janeiro, continuou sendo investigado no estado, e os resultados conhecidos hoje, segundo o ministro, só mudaram de patamar quando houve mudança no comando do ministério.
E é aqui que muita gente se surpreende: a crítica não se limita ao passado, ela reorganiza a leitura sobre quando a investigação realmente ganhou tração.
Mas afinal, de que caso estamos falando?
Do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018, um crime que se tornou símbolo de cobrança por justiça, pressão institucional e disputa sobre responsabilidades.
O que aconteceu depois muda tudo porque, em fevereiro, o STF definiu as penas dos cinco condenados por envolvimento e planejamento dos assassinatos.
Além das penas de prisão, a Corte fixou indenização de 7 milhões de reais por danos morais às famílias das vítimas.
Quem foram os condenados?
Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, recebeu 76 anos e três meses de reclusão, em regime inicial fechado, além de 200 dias-multa.
Chiquinho Brazão também foi condenado a 76 anos e três meses de reclusão, com 200 dias-multa.
Ronald Paulo de Alves, ex-policial militar, recebeu 56 anos de reclusão.
Rivaldo Barbosa, delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro, foi condenado a 18 anos de reclusão e 360 dias-multa.
Já Robson Calixto Fonseca, ex-assessor do TCE, recebeu 9 anos de reclusão e 200 dias-multa.
E parou por aí?
Também foi decretada a perda do cargo público de Domingos Brazão, Robson Calixto Fonseca, Rivaldo Barbosa e Ronald Paulo de Alves.
Além disso, todos os réus tiveram a suspensão dos direitos políticos desde a publicação da ata do julgamento até oito anos após o cumprimento da pena.
Então por que a fala de Gilmar continua reverberando?
Porque ela não discute apenas o desfecho judicial.
Ela recoloca no centro uma pergunta incômoda: se o avanço veio depois, quanto tempo se perdeu antes?
E essa é justamente a parte que mantém o caso aberto no debate público — não sobre quem foi condenado, mas sobre quem priorizou, quem não priorizou e o que isso significou no caminho até a resposta.