O Planalto voltou a transformar Donald Trump em alvo político, mas a jogada que anima o PT pode abrir uma frente delicada para Lula e para o STF.
A nova tensão entre Brasil e Estados Unidos não ficou restrita à diplomacia.
Em pouco tempo, o atrito atravessou fronteiras, entrou no debate eleitoral e passou a ser tratado como combustível político em Brasília.
A aposta do governo, segundo análise discutida no programa Os Três Poderes, é conhecida: nacionalizar o confronto com Trump, mobilizar a militância e repetir um roteiro que já trouxe ganho de popularidade no episódio do tarifaço americano.
Mas por que esse embate interessa tanto ao petismo?
Para os comentaristas, bater em Trump ajuda a engajar a base lulista nas redes sociais e a reorganizar a narrativa de confronto entre campos políticos.
Em evento público, Lula ironizou o republicano ao dizer que seria preciso dar a ele o Prêmio Nobel da Paz “para não ter mais guerra”.
A fala foi lida como recado direto ao eleitorado brasileiro, muito mais do que como simples comentário sobre política externa.
O problema é que a crise não se resume a retórica.
Ela ganhou peso com o caso de Alexandre Ramagem, ex-deputado que buscou refúgio em território americano.
A prisão e posterior liberação dele nos Estados Unidos aceleraram a politização do episódio.
O governo brasileiro reagiu com base no princípio da reciprocidade após medidas adotadas por Washington contra um agente brasileiro, e Lula apoiou publicamente a resposta diplomática.
O que poderia ser tratado de forma técnica virou disputa política.
Essa é uma das críticas centrais feitas no debate.
Em vez de contenção, o episódio passou a servir como mais um capítulo da polarização.
E é justamente aí que surge a contradição que pode custar caro ao governo.
Ao tentar transformar Trump em adversário útil para consumo interno, o Planalto também ajuda a ampliar uma narrativa que interessa ao campo bolsonarista.
Qual narrativa?
A de perseguição política.
Segundo os debatedores, quando autoridades americanas mencionam esse tipo de argumento, aliados de Jair Bolsonaro ganham munição para sustentar que investigados e foragidos seriam vítimas de abuso institucional no Brasil.
Em outras palavras, a crise que o PT tenta usar para energizar sua militância pode acabar fortalecendo um discurso contrário ao próprio governo e, de quebra, atingir o Supremo.
Esse é o ponto mais sensível.
Se houver um reconhecimento formal de perseguição política por parte do governo americano, o desgaste institucional no Brasil tende a ser forte.
Não seria apenas um embaraço diplomático.
Seria um questionamento com potencial de atingir diretamente a imagem do governo Lula e do STF, hoje já no centro de críticas por decisões vistas por adversários como excessivas ou politizadas.
Então o confronto compensa eleitoralmente?
Marcela Rahal ponderou que o embate com Trump conversa com a militância petista, mas pode não alcançar o eleitorado mais decisivo.
Pesquisas recentes, segundo ela lembrou, mostram que ainda existe um contingente expressivo de brasileiros sem voto definido.
Falar apenas para os já convencidos pode gerar barulho, engajamento e aplauso nas redes, mas não necessariamente ampliar apoio real.
E onde está o risco maior para Lula?
Justamente no desfecho do caso.
Se houver extradição, o Planalto poderá vender o resultado como vitória diplomática.
Mas, se houver concessão de asilo, o efeito tende a ser o oposto.
Nesse cenário, a narrativa de abuso institucional ganharia força, com repercussão direta sobre o governo e sobre o Supremo.
Nos bastidores do Itamaraty, a expectativa é de contenção.
Ainda assim, o fator Trump adiciona um elemento de imprevisibilidade que escapa ao controle do Planalto.
A cada gesto de Washington, a crise pode ser reativada.
A cada resposta de Brasília, o tema volta ao centro da campanha.
No fim, o que parecia uma oportunidade política para o PT pode se revelar uma armadilha.
Lula tenta reviver um confronto que já lhe rendeu dividendos, mas agora o terreno é mais instável.
Porque desta vez não se trata apenas de usar Trump como inimigo conveniente.
Trata-se do risco de ver a disputa internacional reforçar, dentro e fora do Brasil, questionamentos que atingem em cheio o governo e o STF.