Um mês de espera, nenhuma decisão e uma CPI parada no Supremo.
O caso do Banco Master entrou numa zona de silêncio que, em Brasília, costuma dizer muito.
De um lado, senadores afirmam ter cumprido os requisitos para abrir uma comissão parlamentar de inquérito.
Do outro, o ministro Kassio Nunes Marques, do STF, ainda não despachou a ação que cobra a instalação da CPI.
No meio desse impasse, dois nomes centrais no caso negociam acordo de colaboração premiada.
A pergunta que se impõe é simples: por que a CPI continua travada?
Até agora, não há decisão formal do relator, nem sinal de encaminhamento.
O pedido foi protocolado há um mês pelos senadores Eduardo Girão, do Novo do Ceará, e Alessandro Vieira, do MDB de Sergipe.
Desde então, nada foi assinado por Nunes Marques.
Nem mesmo o pedido para redistribuir o caso ao ministro André Mendonça, que já responde por investigações relacionadas ao Banco Master no STF, foi analisado.
O efeito prático dessa demora também é direto.
Sem decisão, não se abre uma nova frente de apuração no Senado.
Parlamentares avaliam que isso afeta o andamento das investigações.
E é justamente aí que o caso ganha um peso ainda maior.
Enquanto a CPI não sai do papel, o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa negociam delação.
O que isso muda?
Muda o timing de tudo.
Porque a comissão, se instalada, poderia avançar em paralelo a fatos que ainda estão em movimento.
Com a inércia no Supremo, o Legislativo fica bloqueado num momento sensível.
E, em política e Justiça, tempo raramente é um detalhe irrelevante.
Há outro ponto que amplia a pressão sobre o caso.
Em 12 de fevereiro, o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do processo.
Antes disso, a Polícia Federal enviou ao presidente do STF, Edson Fachin, um documento de cerca de 200 páginas com indícios de conexões entre Daniel Vorcaro e Toffoli.
Entre os elementos citados está o pagamento de R$ 35 milhões por uma participação no Tayayá Resort, do qual Toffoli declarou ser sócio.
Esse foi o único ponto mencionado?
O documento também cita o ministro Alexandre de Moraes.
O caso menciona um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF.
E a situação fica ainda mais delicada porque há referências também a ligações entre Vorcaro e o próprio Nunes Marques.
Qual é essa ligação apontada?
Segundo o jornal O Estado de S.
Paulo, o banco transferiu R$ 6,6 milhões para a Consult, empresa que realizou pagamentos ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro, em 2024 e 2025. Esse dado não resolve o caso por si só, mas ajuda a explicar por que a demora na análise passou a ser vista com tanta desconfiança.
É aqui que surge a contradição mais incômoda.
A Constituição assegura o direito das minorias parlamentares de criarem CPIs quando os requisitos legais são cumpridos, como o número mínimo de assinaturas.
No caso do Banco Master, 34 senadores apoiam a iniciativa.
Então por que a comissão ainda não foi instalada?
A resposta, neste momento, está justamente na ausência de resposta do Supremo.
Eduardo Girão resumiu a indignação em tom duro.
Disse ser “injustificável, inadmissível e extremamente desrespeitoso” o que Kassio faz, “não comigo, mas com o Brasil”.
A fala expõe mais do que um protesto individual.
Ela traduz a percepção de que, mais uma vez, o STF interfere no ritmo de um instrumento típico do Parlamento, num cenário em que ministros da própria Corte aparecem citados em documentos e conexões relacionadas ao caso.
O ponto principal, portanto, não é apenas a existência de uma CPI pedida por senadores da oposição.
É o fato de que ela permanece travada exatamente quando envolvidos negociam colaboração premiada e quando surgem menções a figuras do topo do Judiciário.
A demora de Nunes Marques, sem despacho e sem definição sobre a redistribuição, impede que o Senado avance.
No fim, a pergunta que fica é a mais desconfortável de todas: quem ganha com o relógio parado?
Em Brasília, quando tudo para no momento mais sensível, a paralisia deixa de ser detalhe e passa a ser parte central da notícia.