Há comparações que não pedem licença: elas irrompem e obrigam o leitor a encarar uma imagem difícil de esquecer.
É isso que acontece quando Alexandre de Moraes é aproximado da figura do Faraó, não como ornamento retórico, mas como chave para descrever um poder que, segundo o texto, endurece o coração e multiplica a própria ruína.
Mas por que essa associação ganha força justamente agora?
Porque ela surge ao lado de episódios concretos mencionados pelo autor: a condenação de um homem a 14 anos de prisão por ter feito um pix de R$ 500, o retorno à cadeia de uma senhora idosa doente de câncer e a notícia de que o patrimônio de Moraes teria aumentado 266% desde que se tornou ministro do Supremo.
E o que essa imagem do Faraó pretende iluminar?
A ideia de que o governante mau não é livre, mesmo quando parece absoluto.
O texto recorre a Santo Agostinho para afirmar que o homem bom é livre até quando escravo, enquanto o homem mau permanece escravo até quando é rei.
Como isso se aplica aqui?
Pela tese de que Moraes serviria a inúmeros senhores, que seriam os seus próprios atos.
Em vez de autoridade serena, aparece a figura de alguém aprisionado pela sucessão de escândalos e pela insistência no mal.
Mas por que falar em dez pragas?
Porque a comparação bíblica avança e transforma a crítica política e jurídica numa sequência de imagens que procuram retratar males que, segundo o autor, atingem o Brasil.
Qual seria a primeira delas?
O sangue na lei.
Assim como o Nilo se tornou rubro e morto, o texto afirma que a fonte do Direito brasileiro foi corrompida pelo poder político, convertendo a lei, que deveria proteger a liberdade, em instrumento de arbítrio.
E depois?
Vêm as rãs da invasão.
O que elas representam?
As ordens de busca e apreensão que, segundo a crônica, entram nos lares e violam a vida privada por crimes de opinião, transformando a casa, antes refúgio, em espaço de medo.
Em seguida aparecem os piolhos do monitoramento.
Que praga é essa?
A da vigilância constante, do acompanhamento de redes sociais e dos relatórios informais produzidos por assessorias, uma presença miúda e persistente que alcança o cotidiano digital do cidadão comum.
Isso termina aí?
Não.
O quadro se adensa com as moscas dos inquéritos.
O que zune nessa imagem?
Processos sem fim, sem rosto e sem prazo, inquéritos descritos como farsescos, sempre pairando sobre os críticos e impedindo descanso.
Logo depois surge a peste do confisco.
Em que ela se traduz?
Na carga tributária confiscatória, no bloqueio de contas bancárias e na destruição financeira de empresas, atingindo o sustento das famílias e dobrando vontades pela necessidade material.
E quando a pressão deixa de ser apenas econômica ou processual?
Aí entram as úlceras da censura.
O que seriam essas feridas?
A derrubada de perfis e a proibição da fala, marcas de um regime que, segundo o autor, não suporta a luz da verdade e prefere o silenciamento.
Na sequência cai o granizo das penas injustas.
Sobre quem ele recai?
Sobre os pequenos, enquanto os grandes pecados seriam ignorados.
O texto cita idosas doentes e homens humildes condenados a décadas de cárcere por gestos simbólicos.
Ainda haveria mais destruição?
Sim, e ela aparece nos gafanhotos da inocência.
O que eles devoram?
O autor fala em multas milionárias e solidárias que consomem gerações inteiras de perseguidos que, segundo ele, não cometeram crime algum.
Depois chegam as trevas do sigilo.
Como elas operam?
E qual é a última praga, aquela que fecha a sequência?
A morte do futuro.
Por que esse nome?
Porque ela atinge a herança, os filhos, o que vem depois.
O texto contrapõe o choro do povo por filhos presos por uma pichação de batom à celebração de contratos de R$ 129 milhões com o Banco Master.
Nesse ponto, a imagem final se completa: o sangue nos umbrais já não é o do cordeiro que liberta, mas o ouro que acorrenta a alma do magistrado ao seu maior senhor, o próprio pecado.
E onde tudo isso desemboca?
Na lembrança da Páscoa, da passagem da escravidão para a liberdade.
É por isso que, no encerramento, a metáfora bíblica se abre por inteiro: neste início de Tempo Pascal, o Mar Vermelho da história se prepara para abrir, enquanto o Faraó, cercado por seus carros de guerra jurídicos e seus tesouros acumulados, acredita que o caminho está livre.
O que ele esqueceria, segundo o autor?
Que a liberdade não é concessão do Estado, mas dom de Deus, e que nenhum homem, por mais que se julgue um deus, pode contê-la para sempre.