Ele abriu o peito de homens à beira da morte depois de estudar o assunto por apenas dez minutos.
Como alguém chega a esse ponto sem ser médico?
A resposta começa com um nome que parecia sempre escapar de uma identidade fixa: Ferdinand Demara, conhecido como “Grande Impostor”.
Diferente de golpistas que perseguem dinheiro, ele fazia outra coisa.
O que ele roubava?
Identidades.
E por quê?
Segundo o relato, porque estava entediado.
Mas isso era um caso isolado ou um padrão de vida?
Era um padrão.
Ao longo dos anos, Demara assumiu papéis muito diferentes entre si.
Quais?
Passou-se por monge, diretor de prisão, professor de filosofia e engenheiro civil.
Cada nova identidade ampliava a sensação de que ele podia entrar em qualquer lugar, ocupar qualquer função e seguir adiante como se pertencesse àquele mundo.
Ainda assim, entre tantas farsas, qual foi a mais inacreditável?
A que aconteceu durante a Guerra da Coreia.
Foi ali que ele deu um passo que parecia impossível até para alguém acostumado a viver sob nomes alheios.
O que ele fez?
Roubou as credenciais de um médico chamado Joseph Cyr e entrou para a Marinha Canadense como cirurgião do navio.
Ele tinha formação médica?
Nenhuma.
E mesmo assim conseguiu ocupar o posto.
Por um tempo, tudo correu sem desmoronar.
Mas por quanto tempo uma mentira dessas poderia resistir?
O que aconteceu então?
Dezesseis soldados, feridos em combate, foram levados a bordo em estado crítico.
A situação não permitia espera.
O que estava em jogo?
A vida de todos eles.
Sem cirurgia imediata, morreriam.
Foi nesse instante que a fraude finalmente seria exposta?
Seria o momento em que ele entraria em pânico, confessaria tudo ou fugiria?
Não.
Demara fez o oposto.
O que ele fez primeiro?
Mandou que as enfermeiras preparassem os pacientes.
E depois?
Correu para sua cabine.
Por que ir para a cabine quando havia homens precisando de operação urgente?
Porque ali estava sua única chance.
Demara abriu um livro de medicina e procurou o que precisava.
O que leu?
O capítulo sobre cirurgia torácica.
Quanto tempo teve?
Apenas o suficiente para uma leitura rápida.
Como conseguiu reter aquilo?
Ler era uma coisa.
Operar era outra completamente diferente.
Ele realmente voltou para a sala de cirurgia?
Sim.
Depois de memorizar o material, retornou e realizou as operações.
E o resultado?
As cirurgias foram feitas com sucesso.
Quantas vidas foram salvas?
Dezesseis.
O homem que não tinha treinamento médico saiu daquela sequência de emergência como quê?
Como um herói de guerra.
A imprensa passou a tratá-lo com admiração.
Seu nome ganhou destaque.
Sua imagem cresceu.
Sua história parecia extraordinária demais para ser contestada.
Mas foi justamente essa visibilidade que o protegeu ou que o destruiu?
Destruiu.
Quanto mais seu feito circulava, maior a chance de alguém perceber o impossível.
E alguém percebeu.
Quem?
O verdadeiro Dr.
Joseph Cyr.
Como ele descobriu?
Viu seu próprio nome no jornal.
E o que fez em seguida?
Avisou a Marinha.
A partir daí, a construção inteira começou a ruir.
O falso cirurgião, celebrado como herói, já não podia sustentar a identidade que havia tomado emprestada.
Ele foi preso?
O relato diz outra coisa.
Demara foi dispensado com desonra, embora não tenha sido processado.
E assim terminou o episódio mais absurdo de sua trajetória: um homem sem formação médica, usando o nome de Joseph Cyr, entrou na Marinha Canadense como cirurgião durante a Guerra da Coreia, leu por cerca de dez minutos um capítulo de cirurgia torácica em um livro de medicina, voltou para atender dezesseis soldados feridos em estado crítico, realizou as operações com sucesso, foi tratado como herói de guerra e caiu quando o verdadeiro dono do nome viu a notícia no jornal.