Quase ninguém imagina o tamanho da conta quando a publicidade oficial troca a TV pelo feed.
Quanto o governo Lula pagou a influenciadores e artistas para campanhas públicas?
A resposta começa a aparecer em números que chamam atenção: os valores chegaram a R$ 470 mil por campanha, e isso já muda a forma como muita gente enxerga a comunicação oficial.
Mas estamos falando de casos isolados ou de uma estratégia mais ampla?
Não, não se trata de episódios soltos.
Desde 2025, sob a gestão de Sidônio Palmeira na Secom, o governo Lula destinou cerca de R$ 2 milhões a influenciadores digitais e artistas para participação em campanhas publicitárias.
Os dados foram publicados pela Folha e obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, após determinação da Controladoria-Geral da União para divulgação dos valores.
E quem recebeu os maiores cachês?
É aqui que a maioria se surpreende.
Os dois maiores pagamentos foram para nomes bastante conhecidos.
A atriz Dira Paes recebeu R$ 470 mil por campanha do aplicativo Celular Seguro.
Já o carnavalesco Milton Cunha foi contratado por R$ 310 mil para divulgar ações do Ministério da Saúde.
Só esses dois contratos já mostram que a aposta não foi pequena.
Então os demais valores ficaram muito abaixo disso?
Em parte, sim, mas ainda assim os números seguem relevantes.
Outros influenciadores receberam quantias que variaram de R$ 1 mil a cerca de R$ 125 mil para produzir conteúdo ligado a programas e iniciativas do governo.
Matheus Buente recebeu R$ 124,9 mil, Morgana Camila ficou com R$ 119,2 mil e Vitor diCastro recebeu R$ 90 mil.
Também houve pagamentos de R$ 50 mil para Anaterra Oliveira e Rodrigo Góes, além de R$ 40 mil para nomes como Gabriela de Oliveira Ferreira, Giovana Fagundes e Matheus Sodré.
Mas há um detalhe que quase passa despercebido: todos receberam diretamente do governo?
Não exatamente.
Parte das ações contou com parcerias com plataformas digitais.
E isso abre uma nova pergunta: quando não há pagamento federal direto, a campanha deixa de fazer parte da estratégia?
O caso do apresentador João Kleber ajuda a entender.
Ele participou de uma campanha sem remuneração federal direta, em uma ação viabilizada pelo Kwai.
E o que torna isso relevante?
O fato de a plataforma ter recebido ao menos R$ 19,5 milhões em publicidade oficial no último ano.
Se os cachês chamam atenção, o que acontece quando se olha o quadro completo?
O ponto não é apenas quanto foi pago a artistas e influenciadores, mas para onde a verba de publicidade está migrando.
Mais de 30% da verba recente foi destinada a sites e plataformas digitais, que receberam ao menos R$ 234,8 milhões de um total de R$ 681 milhões investidos em anúncios no período.
Isso significa que a internet passou a ter mais peso do que a TV tradicional?
Sim, e esse é um dos movimentos mais importantes dessa história.
Pela primeira vez, a publicidade federal destinada ao ambiente digital superou os investimentos em emissoras como SBT e Band.
A mudança ocorreu em 2025, quando a participação da internet no total gasto pela Secom de Lula e pelos ministérios aumentou de forma expressiva.
E quem mais ganhou com essa virada?
Google e Meta passaram a figurar entre os principais destinatários da publicidade federal, atrás apenas dos grupos Globo e Record.
E há um dado que reforça essa mudança: os valores destinados ao Google saltaram de R$ 10,5 milhões em 2023 para mais de R$ 60 milhões.
A Meta também registrou aumento relevante no período.
Então qual é o ponto central por trás desses cachês?
Não é apenas o valor pago a um artista ou influenciador específico.
O principal está na mudança de eixo da comunicação oficial: o governo Lula passou a privilegiar plataformas digitais, ampliar o uso de criadores de conteúdo e concentrar uma fatia cada vez maior da verba pública nesse ambiente.
Os R$ 470 mil de uma campanha chamam atenção, mas talvez o dado mais revelador seja outro: a disputa pela atenção do brasileiro agora acontece, cada vez mais, na tela do celular — e essa conta ainda pode crescer.