Não basta colocar mais dinheiro em circulação para ganhar fôlego político — e é exatamente aí que começa o problema.
Se a lógica parecia simples, por que ela não funcionou?
Porque a aposta era clara: ampliar crédito, reforçar programas sociais, estimular consumo e transformar esse movimento em melhora nas pesquisas.
Só que os números não entregaram o retorno esperado.
E quando a resposta das urnas simuladas não acompanha o esforço do governo, a dúvida deixa de ser econômica e passa a ser política.
Mas o que, de fato, travou esse efeito?
A primeira resposta está no bolso do eleitor.
Medidas como expansão do crédito, reforço de benefícios e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil ajudam a criar sensação de alívio imediato.
Só que alívio não é o mesmo que confiança.
E quando a inflação continua pressionando, esse ganho perde força antes mesmo de virar capital eleitoral.
Então o problema é só a inflação?
Há um detalhe que quase ninguém percebe: o consumo pode até continuar de pé, mas isso não significa que a percepção da economia esteja melhorando.
O crescimento sustentado por crédito e programas sociais convive com um endividamento elevado das famílias.
Hoje, ele está em 49,7% da renda, segundo o Banco Central.
E o comprometimento da renda, incluindo juros e amortizações, chegou a 29,2%.
Em outras palavras, muita gente continua gastando, mas com a sensação de estar cada vez mais apertada.
E por que isso pesa tanto agora?
Porque ano eleitoral não perdoa descompasso entre discurso e vida real.
O governo apostou que medidas econômicas recentes poderiam sustentar consumo e, ao mesmo tempo, melhorar a popularidade.
Mas as pesquisas indicam outra direção.
Em levantamento da AtlasIntel divulgado em 25 de março, Lula lidera cenários de primeiro turno, mas perderia no segundo para Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro.
Já no Paraná Pesquisas, divulgado em 30 de março, Lula aparece empatado com Flávio no primeiro turno, dentro da margem de erro, e também perderia para ele no segundo.
E é aqui que muita gente se surpreende: mesmo com desemprego baixo e crescimento econômico, o humor do eleitor não acompanha automaticamente os indicadores.
Por quê?
Em março, os preços ao consumidor subiram 0,44%, acima da expectativa de 0,29%, e a inflação acumulada em 12 meses chegou a 3,9%.
Pode não parecer explosivo no papel, mas mantém viva a sensação de perda de poder de compra.
Mas se esse pacote não entregou o efeito esperado, o que o governo passou a fazer?
A resposta aponta para uma nova rodada de apostas.
Entraram no radar ações sobre crédito rotativo, regulamentação do trabalho por aplicativos, fim da escala 6x1 e até um estudo para acabar com o imposto sobre importados em sites como Shein, Shopee e AliExpress — a chamada taxa das blusinhas, criada pela própria gestão em 2024. O movimento mostra uma tentativa de reagir rápido.
Só que o que acontece depois muda tudo: especialistas avaliam que os efeitos reais talvez não cheguem a tempo.
Por que não chegariam?
Porque economia tem atraso.
Entre anunciar, aprovar, implementar e fazer o eleitor sentir diferença concreta, o calendário corre mais rápido que o governo.
E existe outro obstáculo: várias dessas medidas podem gerar efeitos colaterais.
O espaço fiscal é limitado, a dívida pública subiu sete pontos percentuais no governo Lula e projeções do Banco Central indicam que ela pode se aproximar de 85% do PIB em 2027.
Mas há ainda um fator externo embaralhando tudo.
A alta do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio entrou no centro da preocupação do Planalto.
E isso não é detalhe.
Combustível mais caro pressiona frete, alimentos e inflação.
Por isso Lula endureceu o discurso contra distribuidoras e postos e encarregou o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, de tentar impedir que essa alta chegue ao consumidor.
O problema é que nem tudo está sob controle do governo — e, ainda assim, o desgaste recai sobre ele.
Então por que falar em “modo desespero”?
Porque o cenário combina pesquisas frustrantes, inflação resistente, famílias endividadas, pressão do petróleo, desgaste com escândalos do INSS e do Banco Master e pouco espaço para novas manobras.
Some a isso o temor do chamado “efeito Biden”, citado por analistas como o risco de insistir numa candidatura em meio ao desgaste crescente, e o quadro fica mais claro.
No fim, o ponto central é este: o pacote de estímulos não conseguiu produzir, até agora, o dividendo eleitoral que o governo esperava.
E, pressionado por pesquisas e por uma economia que não se traduz em sensação de melhora, Lula passou a acelerar novas apostas para evitar que o tempo jogue contra.
A questão é que, quando a reação vem tarde e o eleitor continua desconfiado, cada nova medida deixa de parecer solução — e começa a soar como urgência.