Um salto de quase 500% em processos nos tribunais superiores não chama atenção apenas pelo número, mas pelo que ele sugere sem dizer tudo de imediato.
Como assim, um crescimento tão grande pode levantar mais perguntas do que respostas?
Porque, isoladamente, aumentar a atuação de um escritório não prova nada.
Escritórios crescem, conquistam clientes, ampliam presença.
Mas o que faz esse caso sair do comum é o momento em que essa curva dispara — e o tipo de tribunal em que ela aparece.
Então o que exatamente cresceu?
Antes de 2017, eram 27 processos no STJ e no STF.
Depois, esse total passou para 159 ações nessas mesmas cortes.
O avanço mais forte ocorreu no STJ, onde os registros subiram de 18 para 136 casos, uma alta de mais de sete vezes.
E é justamente aí que começa a dúvida que sustenta toda a discussão: foi apenas expansão profissional ou houve um efeito indireto de prestígio institucional?
Mas por que esse detalhe pesa tanto?
Porque a mudança acontece depois que Alexandre de Moraes assume uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, em março de 2017. Até aqui, o debate não gira em torno de prova de crime.
O ponto central é outro: transparência, percepção pública e o risco de conflito de interesses.
Quando um nome ligado a uma corte superior passa a orbitar grandes causas, a pergunta deixa de ser apenas jurídica e passa a ser também ética.
E quem está no centro desse movimento?
O escritório é de Viviane Barci, esposa do ministro.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe de primeira: a controvérsia não depende de demonstrar favorecimento concreto para ganhar força.
Ela cresce justamente porque, em ambientes de poder, a simples percepção de acesso privilegiado já altera a leitura pública dos fatos.
Se não há comprovação de irregularidade, por que o caso continua repercutindo?
Porque documentos sigilosos da Receita Federal indicam que o escritório recebeu mais de R$ 80 milhões do Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Os pagamentos ocorreram em parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões.
Havia previsão contratual de R$ 129 milhões por três anos de serviço, mas os repasses foram interrompidos antes do fim por causa da liquidação da instituição bancária.
Isso, por si só, prova algo?
Não.
E é aqui que muita gente se surpreende: o próprio material disponível ressalta que não há comprovação de crimes ou irregularidades jurídicas.
Ainda assim, especialistas em Direito Constitucional alertam para o chamado risco moral.
Por quê?
Porque clientes podem ser atraídos não apenas pela capacidade técnica de uma banca, mas pelo peso simbólico de sua proximidade com uma autoridade de topo do Judiciário.
Mas a história para nos pagamentos?
Não.
O que acontece depois muda a dimensão do debate.
Levantamentos mostram que os investimentos da família em imóveis triplicaram nos últimos nove anos.
Em 2017, o patrimônio declarado era de R$ 8,6 milhões.
Em 2026, passou para cerca de R$ 31,5 milhões, um salto de 266%.
Analistas observam que investir em imóveis é prática comum para proteger patrimônio, mas a velocidade e a magnitude desse crescimento chamam atenção quando comparadas à estrutura operacional do escritório.
Então a questão é legalidade ou aparência?
Legalmente, o texto disponível afirma que não há prova de ilícito.
Institucionalmente, porém, permanece a dúvida sobre como o sistema deve reagir quando a aparência de favorecimento se torna parte do problema.
E essa talvez seja a pergunta mais incômoda de todas: em cargos de poder extremo, basta ser legal ou também é preciso parecer imune a qualquer vantagem indireta?
Existe caminho para apuração?
Um caminho é interno: o próprio STF pode apurar condutas éticas de seus membros.
O outro é externo: o Senado Federal tem poder constitucional para abrir processo de impeachment em casos de crime de responsabilidade.
Mas há um novo ponto que recoloca tudo em suspenso: especialistas consideram essas hipóteses improváveis no cenário político atual.
E por que esse caso continua prendendo tanta atenção?
Porque ele não se resume a números, contratos ou imóveis.
Ele expõe uma zona cinzenta em que prestígio institucional, interesse privado e confiança pública se cruzam sem que a fronteira fique totalmente nítida.
No fim, a pergunta do título não encontra uma resposta simples justamente por isso: o crescimento de quase 500% pode ser lido como expansão profissional, mas também como sinal de um ambiente em que a influência percebida vale quase tanto quanto a influência real — e essa é a parte que ainda está longe de se encerrar.