Nem todo mundo emagrece do mesmo jeito com o mesmo remédio — e é justamente aí que começa a pergunta que mais intriga médicos, pacientes e pesquisadores.
Se dois pacientes usam medicamentos da mesma geração, seguem o tratamento e ainda assim terminam com resultados tão diferentes, o que está realmente mudando no corpo de cada um?
A resposta mais óbvia seria alimentação, rotina ou metabolismo.
Mas isso explica tudo?
Ainda não.
Esses remédios, como a semaglutida e a tirzepatida, ganharam fama por agir em hormônios ligados ao apetite, à saciedade e ao metabolismo.
Em muitos casos, a perda de peso é expressiva.
Então por que algumas pessoas chegam a perder mais de 25% do peso corporal, enquanto outras mal alcançam 5%?
Essa diferença não é pequena — e também não parece ser aleatória.
Mas será que o problema está apenas na disciplina ou na forma como cada pessoa responde ao tratamento?
É aqui que a maioria se surpreende: a resposta pode estar, ao menos em parte, no próprio código genético.
Um estudo publicado na revista Nature analisou dados de quase 28 mil pacientes e encontrou variantes genéticas associadas tanto à eficácia quanto aos efeitos colaterais desses medicamentos.
Isso muda o debate porque sugere que o corpo de algumas pessoas pode estar biologicamente mais preparado para responder melhor ao tratamento.
Mas como isso acontece na prática?
Os pesquisadores identificaram uma variante no gene GLP1R, responsável por codificar o receptor de GLP-1, justamente um dos alvos diretos dessas terapias.
E por que isso importa tanto?
Porque, se o remédio age nesse receptor, qualquer diferença genética nessa estrutura pode alterar a intensidade da resposta.
Quem tinha essa variação genética apresentou maior perda de peso: cerca de 0,7 kg a mais com uma cópia da variante e até 1,5 kg adicionais com duas cópias.
Parece pouco?
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe: esse achado não tenta explicar milagres, e sim por que, dentro de um mesmo tratamento, algumas pessoas saem na frente sem que isso seja visível por fora.
A hipótese dos pesquisadores é que essa variante torne o receptor mais eficiente, aumentando sua presença na superfície das células e facilitando a ação do medicamento.
Em outras palavras, o remédio pode encontrar um terreno mais favorável em certos organismos.
Mas isso significa que a genética decide tudo?
Não.
E o que acontece depois muda tudo.
O mesmo estudo mostrou que a genética também pode influenciar os efeitos colaterais.
Náuseas, vômitos e desconfortos gastrointestinais já são conhecidos por quem acompanha esse tipo de tratamento.
Só que, em algumas pessoas, esses sintomas podem ser muito mais intensos.
E por quê?
Foram encontradas variantes ligadas a maior risco de náuseas e vômitos.
Uma delas, no gene GIPR, foi associada a um risco até 83% maior de vômitos em usuários de tirzepatida.
E isso para por aí?
Não exatamente.
Em casos raros, certas combinações genéticas podem ampliar drasticamente esse efeito, elevando em até 15 vezes o risco de vomitar.
E isso abre outra questão importante: será que parte da perda de peso em alguns pacientes também pode estar ligada ao mal-estar, e não apenas à ação ideal do remédio?
Essa possibilidade também entra na conta, já que quanto mais enjoada a pessoa se sente, menos tende a comer.
Então finalmente está explicado por que alguns emagrecem mais?
Só em parte.
Os próprios especialistas alertam que a genética é apenas um subcomponente.
Idade, sexo, condições metabólicas e comportamento também influenciam a experiência com esses medicamentos.
Ou seja, o DNA ajuda a contar a história, mas não escreve o roteiro inteiro.
E por que essa descoberta importa tanto, se ela ainda não muda imediatamente o tratamento?
Em vez de testar no escuro, a ideia da farmacogenômica é adaptar a terapia ao perfil genético de cada paciente.
No fim, a principal resposta é esta: certas pessoas perdem mais peso com Mounjaro porque diferenças genéticas podem tornar o medicamento mais eficaz — ou mais difícil de tolerar.
Só que essa explicação, longe de encerrar o assunto, abre a pergunta que deve guiar os próximos passos da medicina: quando será possível prever, antes do primeiro uso, quem realmente vai responder melhor?