Uma frase dita longe do Brasil conseguiu tocar no ponto mais sensível da crise institucional do país.
Mas o que foi dito para provocar tanto impacto?
Não se tratou de uma crítica lateral, nem de uma observação genérica sobre o Judiciário.
O alvo foi o centro do sistema.
E por que isso chama tanta atenção?
Porque a fala não apontou apenas falhas de funcionamento, excesso de poder ou divergências jurídicas.
Ela sugeriu algo mais profundo: que os instrumentos tradicionais do Direito já não seriam suficientes para explicar o momento atual.
Quando alguém afirma que a mais alta Corte está no centro da própria crise, a discussão muda de patamar.
Mas há um detalhe que quase ninguém percebe: a crítica também rejeitou uma das saídas que vinham sendo colocadas em debate.
Qual saída?
A ideia de que um código de ética para a Corte poderia resolver o problema.
Segundo a avaliação apresentada, não resolveria.
E isso levanta outra pergunta inevitável: se nem uma nova regra ética bastaria, então qual é o tamanho real da crise?
É aí que muita gente se surpreende.
O argumento não foi o de que o país enfrenta apenas um problema de Justiça.
A formulação foi mais ampla: trata-se de uma crise de confiança.
E confiança, quando se rompe no topo, contamina tudo embaixo.
Se a instância máxima passa a ser vista como parte do problema, o que acontece com a percepção pública sobre equilíbrio, limite e legitimidade?
Mas quem fez essa declaração?
Foi Luiz Fernando Casagrande Pereira, presidente da OAB do Paraná.
E onde isso aconteceu?
Durante o Brazil Legal Symposium, promovido pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, na quinta-feira 9. O contexto ajuda a entender o peso da fala: não foi um comentário isolado em ambiente informal, mas uma manifestação feita em um encontro com juristas, economistas e autoridades públicas brasileiras.
O que acontece depois muda tudo, porque a fala não surge no vazio.
A OAB vem ampliando críticas ao STF.
Essas manifestações incluem a tentativa de participar do debate sobre um Código de Ética para a Corte e também questionamentos sobre investigações conduzidas pelo próprio Supremo.
Entre os pontos citados está o Inquérito das Fake News, relatado por Alexandre de Moraes, que já dura sete anos.
E por que esse pano de fundo importa tanto?
Porque ele mostra que a crítica não está restrita a uma frase de efeito em um evento internacional.
Ela se conecta a um ambiente mais amplo de desconforto institucional.
E esse ambiente ganhou um dado concreto poucos dias antes.
Qual dado?
A seccional paulista da OAB divulgou uma pesquisa com advogados que expôs um retrato duro da percepção sobre o STF.
Segundo o levantamento, 47,7% dos entrevistados avaliam a atuação da Corte como muito negativa.
Apenas 3,7% a consideram muito positiva.
Quando quase metade de um universo profissional diretamente ligado ao sistema de Justiça faz uma avaliação tão severa, a crítica deixa de parecer isolada.
Mas há outro ponto que reacende a curiosidade no meio dessa história: o descontentamento não para na avaliação do desempenho.
Ele alcança a própria estrutura do tribunal.
A pesquisa mostrou que 64,1% defendem mandato fixo de oito anos para os ministros.
E mais: 81,9% apoiam mudança na forma de escolha dos integrantes da Corte, hoje prerrogativa exclusiva do presidente da República.
Já o modelo atual de permanência até a aposentadoria foi apontado como ideal por apenas 8,3%.
Então qual é o ponto principal de tudo isso?
A fala em Harvard condensou algo que já vinha se formando em camadas: a percepção de que a crise em torno do STF não é apenas jurídica, mas moral e institucional, e de que ela afeta a confiança no sistema como um todo.
Ao dizer que nenhum código resolverá isso, o presidente da OAB-PR não apenas criticou uma proposta específica.
Ele sugeriu que o problema está em um nível mais profundo — e justamente por isso continua aberto.