O recado foi direto e expôs um problema que o PT já não consegue esconder.
Durante o encerramento do 8º Congresso Nacional do partido, em Brasília, o presidente nacional da sigla, Edinho Silva, afirmou que o PT precisa ter humildade para se aproximar de dois grupos específicos da sociedade: os evangélicos e os motoristas de aplicativo.
A fala não surgiu por acaso.
Ela veio acompanhada de uma admissão mais ampla, a de que o partido precisa ouvir mais a população e entender por que tem perdido espaço justamente em áreas onde antes dizia ter forte identificação.
Mas o que essa declaração realmente revela?
Antes de tudo, mostra que o PT reconhece uma dificuldade concreta de diálogo com parcelas importantes do país.
E não se trata apenas de uma disputa eleitoral abstrata.
Quando Edinho diz que o partido não pode “ficar irritado” ao perder votos na periferia, ele admite que existe um afastamento entre a legenda e setores que, por muito tempo, estiveram no centro do seu discurso político.
A pergunta inevitável é simples: por que o PT sente agora a necessidade de fazer essa autocrítica?
Segundo ele, o partido precisa ir até as periferias e perguntar por que moradores que o PT diz querer representar “não querem conversar” com a sigla neste momento.
A frase chama atenção porque inverte a lógica que durante anos dominou parte do discurso petista.
Em vez de presumir apoio automático, Edinho reconhece que esse vínculo se enfraqueceu.
E há outro ponto importante.
Ao citar os evangélicos e os motoristas de aplicativo, Edinho aponta para dois segmentos que cresceram em relevância social e política e que escapam, em grande medida, das fórmulas tradicionais da esquerda.
Os evangélicos têm forte presença nas periferias e influência crescente no debate público.
Já os motoristas de app representam uma nova realidade do trabalho urbano, marcada por autonomia, informalidade e demandas próprias.
Ignorar esses grupos tem custo político.
O PT agora admite isso.
No meio dessa tentativa de correção de rota, surgiu uma contradição que ajuda a explicar o tamanho do problema.
Edinho afirmou que, por causa das redes sociais, muitas vezes a militância fica apenas no ambiente digital e deixa de ter presença nos territórios.
Em outras palavras, o partido reconhece que trocou parte da atuação de base por uma militância mais concentrada na internet.
E isso, segundo ele, enfraqueceu a organização popular.
Por que isso importa tanto?
Quando o presidente do partido diz que é preciso “voltar” a priorizar nucleação e organização de base, ele está admitindo que algo essencial foi deixado para trás.
Não é um detalhe.
É uma confissão política relevante.
Edinho também afirmou que o manifesto aprovado no congresso aponta nessa direção.
Para ele, as redes são importantes, mas não substituem a organização popular.
A fala tenta reposicionar o partido, mas também expõe um dilema: se o PT precisa voltar à base, é porque a base já não responde como antes.
O cenário fica ainda mais simbólico pelo contexto do evento.
O encerramento do congresso reuniu governadores, ministros e nomes de peso ligados ao campo governista e à esquerda.
Ainda assim, o discurso que mais chamou atenção foi justamente o que reconheceu distância, perda de votos e dificuldade de diálogo com a sociedade real.
Isso diz muito.
No fim, o ponto principal apareceu com clareza.
A fala de Edinho não foi apenas um chamado à humildade.
Foi o reconhecimento de que o PT enfrenta desgaste em setores estratégicos, especialmente nas periferias, entre evangélicos e entre trabalhadores de aplicativo.
E quando um partido precisa admitir publicamente que deve voltar a ouvir quem dizia representar, é porque o problema já deixou de ser pontual.
A questão agora é outra: essa autocrítica vai produzir mudança concreta ou ficará apenas no discurso de congresso?
O próprio Edinho deu a pista.
Se o partido continuar falando mais para si mesmo do que para a sociedade, a distância tende a crescer.
E o alerta, desta vez, veio de dentro.